segunda-feira, abril 30, 2012

Cárcere

Ela andava arrastando o meu olhar.

Colocava a mão fechada na curva do quadril por puro deboche da minha cativa prisão que balançava junto à cadência de seu andar de nuvens, enquanto eu tropeçava em desejos maltratados.

Prisioneiro conformado, agradeceria ajoelhado se fosse preciso o fato de estar algemado aos olhares descrentes da carcereira faceira que havia arrumado na esquina da Rua São José, que me negava o pão e a água, mas não o perfume de seus cabelos, pois este a graça era quem concedia!

A mim dedicava a ilusão de me ignorar por completo, mas enchia-me o peito de alegria ver que espiava hora e vez se lá me mantinha obediente, mirando sem fim o movimento da sua cintura. A certeza de que lhe sou devoto rega sua vaidade, disto nunca tive dúvidas, todas gostam. E negam... (É claro!).

Chegava sempre antes que ela entrasse para o trabalho. Ria-se alto como se para anunciar que agora eu poderia respirar. E se não durmo pela noite é culpa destes versos sem rumo que ela cantarola durante o dia inteiro e que povoa meus pensamentos pela noite.

Atrás do balcão daquele bar ordena como a uma orquestra afinada, xícaras e açucareiros, pratos e talheres. Sento-me, como sempre, na mesa do canto esquerdo, com visão privilegiada para o decote de sua blusa estampada, que se insinua abusado quando ela manuseia os botões gastos do caixa emperrado.

As saias eram uma atração à parte. Sempre longas e marcadas na cintura. Sua favorita era a azul. Tecido já meio puído, de um algodão fino que a luz do sol que entrava pela porta denunciava as coxas roliças por dentro delas.

Nem vulcões na Indonésia, nem aurora boreal na Antártida, o melhor espetáculo da terra poderia acontecer a qualquer minuto na minha frente, bastava que ela passasse languida entre as mesas e a sua saia, que até parece que tinha vontade própria, volteava displicente e me tocava a perna. Por esse arrepio pagaria com a alma!

Passava boa parte do dia fitando-a por trás das folhas do meu jornal de ontem. Ornada em avental e toda revestida dessa ideia malograda de mulher casada e descente só para me atormentar. Honestidade a toda prova. Adição de mazelas ao meu rosário de malfeitos. Sou homem de poucas convicções, mas uma delas é de que o simples não poderia ser pecado. Porque a beleza não merece contraditório.

Dona dos meus suspiros, ela torcia a boca de leve quando alguém lhe lembrava da minha existência silenciosa naquele mesmo canto todos os dias. Relhava com todos e pediam que fossem procurar o que fazer, pois ela tinha e muito. Dava as costas e se ria solitária e furtiva do meu desconcerto.

Servia-me o café e depois enxugava as mãos no avental batendo duas a três vezes. Não fazia perguntas, não me olhava dentro dos olhos. Mas deixava de propósito que uma gota de suor caído de sua nuca escorregasse entre os seios, enquanto eu inspecionava seus gestos e lhe retribuía com meio sorriso sem graça abandonado nessas olheiras de consumição, mal escondendo a ereção infantilmente disfarçada pelas minhas pernas cruzadas e o jornal amassado.

Ela faz não notar por travessura medida, mas domina todos os meus sentidos pelos controles remotos dos seus quadris e durante o dia vai apertando meus botões com aqueles seus olhos pequenos. Mas não ligo que ela me maltrate. Não ligo com quilos que já perdi apenas para lhe escutar respirar, pois estou certo que sou eu em quem ela pensa quando banha-se de água de perfume ao acordar, e que são para mim os versos de amor que cantarola o dia inteiro. Não me importa que ela me inunde de veleidade, contanto que me guarde um lugar em seu travesseiro, no escuro e secreto recanto de seus prazeres serei eu que lhe despirei as saias e lhe rasgarei a blusa, que lhe causarei sorrisos escorridos e lhe arrancarei gemidos.

No fim do dia ela admira-se no pequeno espelho de moldura laranja ao lado da porta da cozinha e tenta recompor os cabelos presos no topo da cabeça. Por um breve momento os solta por completo para logo em seguida reorganiza-los apressadamente no mesmo penteado. Nesse breve intervalo, entre soltá-los e prende-los novamente, sou homem refeito. Imagino-me levantando da cadeira na mesa do canto esquerdo, cruzando as demais mesas em reboliço, e segurando forte aquelas crinas negras entre os dedos, respirando profundamente o cheiro doce do seu suor e beijando seus lábios de espanto.

Antes de deixar-me largado envolto nos meus sonhos ela dá um adeus gentil para todos e me lança um olhar triste de soslaio que só eu percebo e agarro como se me lançasse uma rosa teatral. Depois segue descendo a rua e arrastando minha vida.

Imagem:http://www.bancodearte.net/dias-ramos/lavadeiras/
Ao som de: Jorge Drexler (Un Lugar en Tu Almohada) - http://www.youtube.com/watch?v=UzwraaGDeXY&feature=fvst

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Carbono


Sente falta do tempo onde tinha que colocar papel carbono na máquina para copiar letra por letra todas as palavras. Gostava principalmente da força que colocava nas teclas, cada batida e o som abafado das folhas.

Um tanto questionável esse seu gosto pela dificuldade da cópia, quando todos os seus sentidos são forjados, imitados por adequação. Nunca encontrou dentro de si o que pudesse chamar de original ou selvagem. Sente falta de instintos.

A maior parte dos motivos são pouco lógicos, e na maioria egoístas, e nem por isso menos legítimos. Conhece pessoas que adotam alguma razão para justificar escolhas muito mais absurdas, e nem por isso mais ou menos condenáveis.

Então sorteia alguma razão da urna dos motivos e a ela segura forte entre as mãos e segue. Tergiversando no meio da festa, barulho e som alto, adotando a melhor das performances das simpátias copiadas e sente-se beijada pelo beijo alheio.  O dele. Sempre o dele.

“Boa noite”, beijos e cumprimentos. Corpos balançando no ritmo da música que gira. Olhares de cumplicidade dirigidos aos olhos que o tocam no outro canto da sala, e tocam a ela na mesma medida. Uma sintonia forjada, uma história inventada para substituir a que não viveram, para apagar, para regar a memória de um esquecimento, para isso e para além, coloca-se distante, e ao mesmo tempo próxima dessa imitação. Do arremedo da constância.  

É fácil distinguir aquilo que é copiado, e ela o sabe bem. A consciência trinca seu espelho. Irritante essa imprecisão, esse vazio entre as vírgulas. Ainda mais angustiante por não pertencer ao laço dos sorrisos, que é como um tear invisível, criando fios um a um, tecendo um laço entre uma ponta e outra, de quem dá para quem recebe. Retribui na mesma moeda de um gesto sem explicação, herança de um antepassado que não traduzia em palavras o que sentia e transmutava em músculos e dentes o que não sabia dizer. Ele é todo músculos e dentes.

Ele abraça o primeiro corpo que lhe aparece, e o mesmo ela o faz. Enreda os dedos por entre os cabelos de uma moça embrulhada em ilusão, e ela o repete no outro canto, com outra alma passageira e ávido por uma gota de desejo qualquer. Assim seguem uma coreografia espelhada de gestos, prazeres e desgostos.

Suas cópias são melhores que as dele, e ela não sabe se deve se orgulhar disso, mas de alguma forma regozija-se, qualquer um pode perceber pelo olhar furtivo que ela lança ao lado oposto da sala. Talvez por acreditar muito mais, talvez por usar da mesma força que lembra que empregava em cada tecla das letras da sua antiga máquina de escrever. Forjando as melhores palavras e agora os melhores sentidos.

 Mas ele ainda assim sorri parado, atado em outros braços, naquele mesmo canto de sala, deixando a mostra tudo o que pretende inexistente, desafiando a ordem, expondo os recantos secretos onde esconde a existência dela dentro dele.

Por vezes se surpreende no mesmo devaneio de sempre, se perguntando se essa sombra, esse papel copiado, será tudo que terá. Mas continua esperando pela simples falta de ponto nas frases. Lançando migalhas aos pombos gordos na frente do seu prédio. É o mesmo que faz com ela quando ele usa desses infinitivos.

Ela é a cópia, o espelho. É a cria do desejo, é o beijo que nunca foi dado. Marca indelével da própria criação.

E assim estão unidos, o original forjado e a cópia da invenção. Os dois são fantoches, imitadores do amor alheio, esse será sempre o papel que terão um em frente ao outro. Fazendo da vida uma folha de carbono, copiando atos e sentimentos, tornando da vida própria a alheia, escolhendo lados, mas sempre inversos e ausentes.

Tarde ao som de: Someone Like You - Adele/ Take it All - Adele

sexta-feira, janeiro 20, 2012

As Portas

Esse texto já estava "rondando" minha cabeça há muito tempo, fico feliz de hoje ele finalmente ter parado de me "assombrar" e aparecido por completo!

Escutava o barulho do ponteiro raspando com dificuldade entre a passagem de um minuto para o outro. O barulho oco dentro do apartamento ainda parecia muito mais razoável do que o ronco do seu estômago reclamando atenção, já que tinha negligenciado à hora do seu café matinal apenas para ouvir o tilintar da xícara, e o girar lento da colher dissolvendo o açúcar.

Adivinha um meio sorriso de satisfação que seria seguido de um olhar pela janela avaliando o tempo, e hoje estava nublado, certamente ele levaria consigo o guarda-chuvas, pensou. Logo depois ele olharia no espelho e passaria os dedos pelos cabelos pegando as chaves ruidosamente, neste exato momento, e por fim abre a porta que reclama o abandono de seu dono rangendo, e a fecha com uma força desnecessária, para depois sair vagarosamente pelo corredor, montado nos mesmos passos firmes de todos os dias. Fim do primeiro ato. Respira fundo.

Só agora atende ao apelo convulso do seu estômago e serve seu café morno, e vai bebê-lo próximo da janela, oculta pelo voal branco, comodamente fechado, enquanto assiste ele distanciando-se na rua, e já espera seu último olhar para cima, como se tivesse acabado de lembrar que se esqueceu de algo no apartamento e que restará esquecido, quem sabe lembrará amanhã. Fim do segundo ato.

Essa é sua dança, uma coreografia que já pintou tantas vezes na sua cabeça que por vezes se pega imitando os gestos que imagina dele, e girando a chave no mesmo momento que ele o faz, mas jamais ousaria abrir a porta.

Acredita no absurdo, que já usam uma comunicação sem palavras. Sua porta e a porta dele, bem em frente da sua, que se fitam sem remédio e sem desculpas, pela pura falta de sorte de não poderem fugir desse destino de assim estarem. Abre, bate, fecha, trava. Seguido. Sempre na mesma ordem. Não confia nas fechaduras, mas nesse ritmo que segue para fazer essa seqüência de ações que sua mente classificou como essenciais. É quase uma música. Uma orquestra inteira quiçá. Imagina-se igualmente dançando. Treinando sem cessar rodopios seguidos. Sente-se leve com este pensamento e até sorri.

Imagina que lamentável destino que tem a sua porta branca, que agora finalmente é aberta para que a sua dona a abandone para suas obrigações do dia. Repara no número que precisa de conserto. Um 6 meio torto que parece tão triste e solitário quanto ela. É sua vez de olhar uma última vez, mas para a porta dele de cor escura, com aquele 9 altivamente irritando-a por ser guardião intransponível de tudo que ela mais deseja.

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Espera o despertador tocar, mas já está acordado a tanto tempo que tenta recordar se chegou a dormir algum minuto daquela noite. Mas sente-se aliviado de finalmente não estar atado ao compromisso de sonhos rebeldes, nos quais se vê em uma repetição sem fim dos mesmos gestos.

Entra no chuveiro com todos os vestígios desses pensamentos e espera que a água o redima para o resto do dia. Prefere-a gelada e imagina-se um faquir por sentir como se milhares de espadas o transpassassem o corpo inteiro. É a dor que o devolve para a sensação de algo que ele costuma chamar de realidade.

Desenvolveu o hábito de revisar mentalmente a agenda do dia enquanto está no banho. Já há algum tempo sente-se tão ansioso por esse início de manhã, sem saber exatamente por que, que já se percebeu velejando por imagens e lembranças que em nada se relacionam com seus relatórios e prazos. Dia desses quase aceitou o conselho de um amigo que receitou alguns patoás feitos por um ubandista no Flamengo. Crê-se assombrado. Mas não consegue evitar a lembrança da imagem dela diante dele. Os cabelos loiros soltos e caídos sobre os ombros.

E perde-se nesses pensamentos tolos de o que ela deverá estar fazendo neste momento, enquanto displicentemente fica a girar o açúcar no café recém passado. Pensa que ela deve estar a espreguiçar-se languidamente sobre a cama, ou a escovar os cabelos lentamente ou quem sabe saindo do chuveiro e imagina ainda que o frio da manhã a deixa arrepiada. Sacode a cabeça energicamente como se tentasse acordar mais uma vez.

Recolhe a pasta, documentos e chaves. Para no espelho e repara nas olheiras pesadas e cada vez mais profundas sobre seus olhos. E se permite pensar que ao bater a porta ao sair, ao menos assim, estaria chegando de alguma maneira também nos pensamentos dela, nem que fosse incomodando-a na leveza da manhã que ele imagina. Cada dia bate mais forte a porta sem se perceber disto. E fecha os olhos imaginando-a franzir a testa com o barulho. E essa imagem o satisfaz. Espia uma última vez a porta do apartamento 6 e pensa em um dia bater. Só nunca consegue imaginar o que seria depois. O que diria. Nunca acha palavras, nunca encontra coragem.

Segue perdendo-se no corredor e depois pelas escadas apressadamente e seu coração bate tão forte, e prefere pensar que aquele esforço matinal de descer dois lances não está lhe fazendo muito bem, precisa fazer exames médicos, quiçá mentais! Finalmente alcança a calçada. Respira fundo e vira em direção à janela dela. E lá está. Bebericando café como todos os dias, linda visão escondida atrás daquele voal. Imagina se um dia acenará para ele, e imagina que guarda um sorriso para ele todas as manhãs. Não hoje. Quem sabe amanhã...

E termina por desaparecer.

terça-feira, novembro 22, 2011

A Cena

Depois de muito, muito (MUITO) tempo depois, eis que retorna ao Brincos o projeto cruzado de escrita entre o meu amigo Hecton e eu. Dessa vez assistimos a mesma cena e dela partimos para o desconhecido! 

Entre o concreto e o cinza, meu pensamento se dissipa entre um tom e outro. Queria poder, bem de longe, imaginar, ou melhor, entender o que você está pensando agora.

Ainda não sabia para onde deveria ir. E até estranhava esse pensamento do “dever” ir, essa obrigatoriedade estranha depois de tudo que vivi nos últimos dias. Os caminhos são iguais, as pessoas são iguais. E imaginava encontros ansiosos das mais variadas maneiras entre todos os personagens que me cercavam, mas eu não cabia em nenhuma das cenas, não cabia em nenhum dos abraços. Não pertencia nem sequer a mim mesma.
Mesmo assim caminhava envolta nesses pensamentos que me arremessavam do passado diretamente para um futuro cinza, sem parada que justificasse esse presente, e por isso pisava com toda a força dos meus pés nesse caminho sem rumo, como se para sentir minha existência pelo próprio peso, sentindo o ressoar de meus passos dentro do meu peito aberto, escancarado. Pegadas imaginárias sobre o concreto, era o que precisava seguir.
A bolsa começa a pesar-me pendente na mão direita. Tentei lembrar o que estava levando dentro dela, e se algo mereceria realmente ser carregado. Um batom vermelho, papéis amassados, algum dinheiro e um cartão dele escrito com sua letra, apenas as iniciais. Não era preciso nada mais. Só aquelas iniciais.

Não que os sons das curvas sejam mais altos do o que ouvi de você há alguns dias. Mas por ter certeza que precisava correr de encontro a você para sentir isso. 

Enquanto passavam por mim os reflexos de imagens que não entendia, e até o ar me faltava, tentei te encontrar entre tantos rostos iguais e diferentes.
Penso ser um eco de meus desejos ou a loucura já habitando meus pensamentos. Minha lembrança insistente e incoerente que o quer de volta ali, ao meu lado, pondo passos no caminho, contando polegadas ou milhas, não importaria, apenas queria que realmente fosse ele. Mas escutei novamente chamarem-me. E é ele. Sorrindo sem sorriso. Parado e resgatando-me de dentro dos meus próprios olhos. 

Talvez o calor do seu corpo seja o bastante pra mim. Nada além do que esperava, enquanto o taxímetro girava... E a paixão se estagnava. E em um minuto, ao sentir o vermelho dos seus lábios, o tempo se rasgou entre o antes e depois desse segundo...

Aquele abraço que imaginei segundos antes de tantos encontros alheios agora era seu. E não sei bem porque me doeu tanto. Todos os ossos do corpo, cada músculo se entregou a uma dor extrema, mas mesmo sendo dor, era perfeito, e era tudo que gostaria de estar sentindo naquele momento. E ele beijou-me. Como se quisesse dizer tudo o que nunca poderia ser dito ou explicado. Depois me devolveu àquele lugar. Pôs-me em pé sobre as minhas pernas e pés, e ao redor voltei a ouvir o barulho da rua e a conversa inteligível das pessoas. Distanciava-se sem ter coragem de dizer adeus. Não seria necessário, pois eu sabia que ele estaria para sempre em mim.

E se tivesse durado mais... Mais que esses instantes não seria tão perfeito quanto o gosto dos seus lábios...

sábado, outubro 29, 2011

Quem não tem visão...


Se tem uma coisa que não perdi foi a capacidade de me surpreender com o nosso potencial para interpretar o silêncio alheio... Era olhar para um terceiro em silêncio, entender tudo, olhar para você e, sem falar nada, perceber que você também tinha visto o que vi. Nada era dito, mas tudo era compreendido.

Isso é muito pretensioso, eu sei, mas o mais curioso não era enxergarmos no escuro e ouvirmos no silêncio, mas sim que víamos as mesmas figuras distorcidas e ouvíamos as mesmas melodias desafinadas, fosse ou não a verdade, fosse ou não o certo. Mas, decididamente, era o nosso certo e não questionávamos isso.

Confesso que me peguei muitas vezes duvidando de que pudéssemos passar tanto tempo sem treinar nossas habilidades interpretativas e mesmo assim, um dia qualquer, perceber que elas continuavam lá. E qual não foi minha surpresa ao perceber, naquele reecontro, que elas pareciam até mais apuradas. Não vou dizer que elas estavam apuradas como um vinho bom porque isso representaria melhora e, certamente, aumentá-las é enxergar com mais clareza, mais dor.

Senti pena de você por perceber que, mesmo conversando sobre vida e morte, seu olhar e seu sorriso eram como se estivéssemos falando amenidades. Me envergonhei. Pois vi no seu olhar que eu também falava sobre profundidades sem energia para mergulhar, ficando só ali, na beira, por achar que não vale a pena, por achar que já sei o que tem lá no fundo, por achar que, mesmo não sendo o que acho que é, o que tem lá não vale a pena ser visto.

Mas também pensei que não deveria sentir pena de você ou vergonha de mim, pois ali não havia julgamentos ou dedos em riste, e sim a mais incompreensível compreensão mútua. É estranhamente confortável pensar que, mesmo falando sinceramente sobre assuntos próximos, falei quase nada de mim, mas você entendeu tudo e enxergou aquilo que eu queria estar dizendo, mas não disse com palavras, disse com silêncio.

E não preciso me justificar por estar escrevendo o óbvio. Obrigada.

terça-feira, outubro 18, 2011

Quem não tem colírio...

Atrás dos nossos óculos escuros estava tão claro como era necessário e prefeito.

E nos reconhecemos nus por trás daqueles óculos. Felizes e nus. Cumplicidade dos iguais.

Acho que perdi a prática em disfarçar sorrisos. Estou mesmo enferrujada velho amigo, em ser algo próximo de mim mesma e também de ser algo distante, você sabe, essa suavidade às vezes me irrita,mas cai bem, assim sempre me disse e depois de ter me vestido dela, sei que estava certo... Fico me perguntando se a minha alegria em lhe ver foi tão irritantemente óbvia quanto eu creio que foi. Odeio, e ao mesmo tempo adoro, dizer que a sua também foi igualmente inequívoca. Shhhhh... Que nossos óculos nos protejam!

Será que me permite ser simples?Estava com saudades e senti muitíssimo sua falta. E teria tantas coisas para dizer que não caberiam no mínimo espaço entre mesuras e composturas que nem vale a pena lamentar por não ter sido ditas e nem vou tornar disso uma lista interminável. Quero mais que seja uma ode ao prazer simples do reencontro. 

Sei que pensou exatamente as mesmas coisas que eu no primeiro segundo. E nem sei se é necessário descrever o alívio da ter certeza de saber que você me lê como quem aponta o dedo e desliza pelos traços de um mapa conhecido, do qual sabe todas as trilhas. Não. Não é necessário. Nada é imperativo aos que se reconhecem. Não sei se confissão ou constatação, mas tenho a nítida sensação que nos encontrarmos é como finalmente chegar. Assim, no infinitivo. 


Ao som de Little Joy - Keep in Mind - (http://www.youtube.com/watch?v=qJCNKxt3VLA   )


sábado, outubro 15, 2011

Don't Even Try...


Vi um sorriso jovem de incertezas e achei tão triste. E em pensar que antes acharia de uma beleza ímpar. Para mim se mostrava como o espelho de uma imagem que envelheceu pela previsibilidade. Por saber por onde andará, e o que passará.

E posso dizer que amava a forma como acreditava em mim mesma e nas ideias. E amava ter certezas catalogáveis, assim como era lisonjeiro ter lado, partidos e time de futebol. Em como o futuro parecia que tinha o gosto da primeira mordida da maçã, e eu nem era a Eva. E poderia até suspirar agora mesmo, imprimindo toda a veracidade dos sentimentos talhados na carne, olhando para esse infinito de memórias fabricadas, e estou certa que acreditaria sem piscar nessa nostalgia inversa.

Acreditava que ideias, genuínas existiam, por mais incoerente que isso possa parecer. A contradição era charme, a dúvida brilhava na decoração da minha personalidade feito diamante e disso eu lembro.

Hoje vejo tudo como uma fumaça incomoda. Uma fumaça de um charuto de quinta fumado por um velho que não ultrapassa em pensamentos nem sequer meio centímetro de meio-fio. Vida rasa. Penso, e logo existo, creio ser um alívio ao menos isso. Mas devo ter essa mesma imagem embaçada com a qual penso, e com a qual sou pensada. Não são os anos que me pesam sobre o rosto. Ainda não. Mas a falta de brilho das ilusões. Odeio reconhecer. Podem até me sobrar lindas pernas para exibir, assim como antes eu exibia minha incoerente perspicácia.  Naquele tempo, e assim até parece quem se passaram anos e não segundos, a incoerência era muito mais sedutora. Antes tudo tinha um sentido latente ao qual buscávamos. Hoje o sentido é só ausente, simples assim.

 Só mesmo acreditando em lindas estórias eternas. Só mesmo acreditando que todos os atos atuais desencadearão um futuro. Uma recompensa. Vivemos feito cachorros enganados com um osso no distante fim muito mal visualizável.  Certamente isso não é história que se conte para criancinhas. Assim ninguém vai para escola. Assim ninguém vai querer saber o PIB mundial.  Essas são as histórias de “mal assombro” que uma pequena corja de covardes conhece. Creio que eu estou entre eles. Estes que permitem que o mundo vá andando, como um trem nos seus trilhos, subindo e descendo montanhas, como se houvesse um destino e um lugar aonde chegar, tudo segue o seu curso e seu caminhar. E que o fazem sem alarde só pela falta que iria fazer essa paisagem plácida que eu assisto com destino a nenhum lugar. Só por este balançar que nina os pensamentos convulsos dessa mesma corja insana. Só porque a poesia dessa beleza é assim, essencialmente ignorante, e assim mesmo deve ficar.

Penso se serei punida pelo sim - conheço todas as perguntas e não as nego - e ao mesmo tempo pelo não - conheço todas as respostas e as deveria esquecer. Penso se estou no meio de um caminho. Mas logo em seguida me debruço sobre a minha falta de método, pois em tal hipótese já vejo a impossibilidade de existir posição incoerente assim. Meio quando não há nem início nem fim?

Eu já quis Buda, Maomé e Oxalá que alguma coisa assim, e todas elas ao mesmo tempo girem, girem e conheçam em mim o que há de essencial e revigorante, o que há de honesto e ignorante, o que há de dormente e exultante, mas que de mim conheçam, que de mim sintam, que de mim vejam o que eu não vejo, o que eu não sinto e o que eu não conheço.  Ou talvez nenhum deles. Ou talvez o sentido mais ínfimo, o mais ignóbil e honesto, o mais tátil e palpável, o mais frágil e desconexo, o amor que há ou que deveria haver, que eu deveria conhecer e cultivar, que eu deveria ter e saber dar, o amor que eu queria ver e criar. Mas nunca foi nem haverá.


sexta-feira, outubro 22, 2010

Crescendo...


Quando criança (ou quando mais criança do que hoje e do que amanhã) eu ficava muitíssimo intrigada quando um dia me cabiam os sapatos e no outro já não me serviam mais. Ouvia sempre a mesma resposta da minha mãe: “Porque está crescendo”... E nem assim isso entrava na minha cabeça, como assim “crescendo”? De um dia para o outro sem aviso prévio? Injusto eu pensava. E ficava tentando enfiar os pés dentro dos mesmos sapatos ultrapassados só para teimar com o ritmo da vida.

Hoje ouvi uma coisa no mínimo inusitada. Que estou muito mais madura. Deu vontade de dizer: “Hã?!” Como assim? Essa contagem eterna de horas está me servindo para alguma coisa por fim. Deve ser assim. Crescendo invisivelmente e agora sem mais a medida dos meus pés para me dizer algo. Ainda mais injusto que antes.

E depois? Voltar ao começo? Espero não terminar meus dias querendo enfiar a minha mente em algum buraco de agulha. Perfeição e tranqüilidade. Beleza sem fim. Até que não soa como uma má idéia, mesmo que os dedos apertem dentro do sapato pequeno...

segunda-feira, julho 19, 2010

I will Try Anything Once



“Ten decisions shape your life
You'll be aware of five about”
Estava vendo outro dia uma entrevista com um estilo diferente, onde as pessoas respondiam com músicas.
Eu não saberia responder nem a metade daquelas perguntas, como se fosse simples dizer qual a música ideal para dizer a vida. Na verdade não seria fácil escolher uma, não por falta de "trilha sonora" na minha vida. Ao contrário. Por ter tantas e variadas paixões musicais que me sentiria traindo todas se escolhesse uma.
Eu mudo sempre. E você ai baixe o dedinho que volúvel é senhora sua vozinha! rs
E mesmo esse blog não sendo algo lá muito musical (mas tem estado atualmente acompanhando os "meus estados") resolvi postar mais essa.
Acho que traduziria uma pergunta assim: O que para você é o mais novo, o mais velho ou eterno?
É essa música do The Strokes.

segunda-feira, julho 12, 2010

I will...

Tem coisas que na minha vida vão e vem. Umas para o bem, outras nem tanto... Música é assim também. Sou o que já cantam “uma mulher de fases”. Se me analisassem (e não é necessário porque já me ocupo o bastante com isso) diriam que minhas fases musicais dizem respeito as minhas fases mentais ou psicológicas, mas isso já é outra história...

Bom, hoje acordei com essa música me corroendo por dentro, cantando ela no chuveiro, na padaria e no sinal... Sem jeito. Psicoticamente sem jeito! rss

Um breve intróito: I Will Survive é uma música Folk Americana (sim, eu adoro Folk! ) que não sei o raio de motivo fez virar hino gay!

A letra fala de uma desilusão e uma superação, e em como é necessário ser forte para esquecer, para não permitir que as mesmas coisas venham lhe ferir novamente. Ou seja, é um pouco da história de todos nós em algum momento da vida...

E ai? Alguém entende porque é hino gay? E não me venha dizer que é por causa do filme Priscila: A rainha do deserto... Pouquíssimo criativo!

Fica o vídeo da música na interpretação impecável de CAKE (LÓGICO!!!)

Dica de última hora: Se você já viveu uma história como a da música, troquem mesmo a fechadura! Funciona! rssss