quinta-feira, julho 16, 2015

My Invention of Love

I swelled you like a little pill,

And turned you into a giant.

I know you didn’t ask me to,

So rip me off from the inside out,

´Cause you can’t stay

And set fire on my every single thought

That’s why I say…

You can’t stay…

And I might find a way

To take you out!

But if you close your eyes, who am I to you?

Am I your sins or your best dreams?

Could you just be the one who holds me?

Can it be that simple?


Ao som de: https://www.youtube.com/watch?v=49-wNRvJwjk
Imagem: http://www.deviantart.com/art/Broken-77224829 (Pintura feita com um lápis quebrado...)

terça-feira, abril 08, 2014

Drip... Drip... Drip...



    Tento pensar por onde começar para refazer o mesmo caminho, e não sei onde por os pés. É como andar olhando por um retrovisor e depois engatar a marcha ré. Sinto que cada vestígio se esvai sem que eu possa reter. E tento voltar, catar cada migalha de você que ainda tenho em mim para ficar em paz com o que não foi.

 
Não creio em lembranças nem em suspiros. Assim como nunca acreditei em viver esse tempo atrasado e demorado, que se afoga premeditadamente em ponteiros arrastados, viciados em ouvir tua voz.

E passo os minutos olhando o teto e aquela goteira velha que pinga no balde azul que tento tão esmeradamente posicionar no chão, mirando suas recordações infiltradas, aquelas as quais nego e que se repetem ritmadamente.

Sei que não seria eu que deveria falar de amor, muito menos de destino, se tirei das mãos do acaso o caso de nós dois quanto te disse e quando calei. Não deveria acreditar  em senões nem em promessas de copo de vinho.

Estou atado na minha teimosia,  preso na insistência do fracasso de um quase amor só por não saber ser só, só por não saber ser eu sem você. Só sei dizer que vai chover e que aquela goteira ainda vai continuar a pingar. Sei dizer onde estão teus sapatos e as chaves do carro, mas não onde escondeu essa felicidade toda que agora me assalta e me assombra.

Já quis pintar as paredes da sala, e quis dizer adeus. Mas lembro do teu dia azul e do teu cheiro amargo e só consigo voltar. Só posso rodar e rodar e parar no mesmo ponto onde pedi para não ir, e pedi para não dizer. E depois para você vir. Mas aporta não se abriu, e só aquele vento sul entrou pela janela, sacodiu a toalha da mesa  e se foi, carregando uma gota para fora do balde e um pensamento cheio de você para fora da minha boca.


quarta-feira, outubro 30, 2013

Coisas Miúdas




Sei... Realmente faz bastante tempo.
Mas tempo necessário. Estava cuidando do essencial! Vida!

Esse texto estava dormindo na gaveta, junto com um monte de coisas miúdas que não sabia onde colocar...

Não sei mais o que fazer com estas tuas coisas miúdas enchendo meus bolsos.
Brincos, batom, palavras rasgadas, amor pesado, paixão leve e conta de luz.
Tiro e reviro. Puxo e logo em seguida mais me aparece...
Chave "de-não-sei-qual-porta", promessas macias, teu perfume e cartão de visitas.
Obstinado continuo inventariando miudezas...
Papéis amarrotados, beijo terno e tampa da caneta.
Bolsos cheios, dúvidas multiplicadas e continuo sem saber...
Fotografia borrada, pétala de flor e bom dia.
O que faço das tuas coisas miúdas? O que faço deste meu desejo de me afogar nas promessas dos teus olhos pequenos. Quanto mais tento entender esse lógica mais perdido fico em “senão” e justificativas torcidas só para lhe agradar. Preso neste lado de dentro dos teus pensamentos, dos teus abraços infinitos, ainda assim não sei o que faço das tuas coisas miúdas.
Não sei se guardo ou se me enrosco nas fitas que usa nos cabelos, pelo simples fato de adorar deslizar o dedo indicador por sua nuca acompanhando a linha desenhada pelos finos pelinhos que lhe descem pelas costas...
Fico neste roer de unhas  esperando que me caia no colo como dádiva a resposta do que fazer destas tuas palavras absurdas que me fazem consumir em desejo. Dedico músicas e sorrisos nas poucas horas lúcidas e ponho-me de pé e distante na loucura. Quero mais é ficar de mãos cheias de teus versos melancólicos e das rendas das tuas saias!
E se ainda tenho fé em algo, rogo: “Valei-me Senhor dos desesperados! Porque não sei mais o que fazer destas coisas miúdas e desta paixão imensa!"
Eu quero abrir a porta certa, sussurrar todas as promessas que quiser ouvir. 
Quero é que me dedique todas as palavras rasgadas,  e que me cubra com beijos de batom.
Quero que seja meu o amor pesado e a minha paixão leve. Quero mais é desenhar seu corpo, despir-lhe de brincos e de "bom dia".
Eu quero é estar na fotografia junto com seu sorriso. Quero me impregnar do seu perfume e deixar de ser eu parte das tuas coisas miúdas.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

O Palco

O texto rondava fazia um tempinho, mas agora ai está! 
Creio que vai demorar um tantinho para uma próxima postagem por dois lindos motivos superiores que estão para chegar, mas hora ou outra estarei por aqui novamente...





De alguns fatos não há como se esconder, por mais vergonhosos que sejam. Eu sempre quis saber cantar. Sem muitas justificativas, ou longos discursos sobre expressão artística ou da alma. O máximo que consegui foi a conveniência de uma mudez infame.



Para aumentar a humilhação, com o tempo, adquiri técnicas para ocultar-me no acanhamento e apropriava-me da voz alheia aprisionando-a na minha boca vazia enquanto a melodia ajudava o embuste mudo do meu canto inexistente. Dublagem de voz e sentimentos. Nada mais apropriado!



Acho que por isso odeio tanto você, despindo-me da minha farsa perfeita, me fez imaginar palcos, e até imaginei cantar no seu ouvido enquanto você ouvia e sorria. Imaginei que gostaria de ver-me envolta em compassos, que amaria tudo o que escorreria dos meus refrãos, não como verdades ou juras, mas como a imagem das possibilidades que nunca realizaríamos. Como eu o odeio!



Não sei se para me afrontar, você sim cantava e eu gostava de ouvir. E eu ficava intrigada tentando encontrar explicação para perfeição. Os sons não saiam apenas dos lábios, mas também daqueles olhos disfarçados de boca que confessavam, mas nunca me diziam. Você cantava e eu emudecia.  Como parte da crueldade, amava vê-lo cantar, me tornando a mais miserável das criaturas.



E eu, apenas me afogava em palavras que nunca ganhariam pernas enquanto ele todo prazeres! Boca, peito, palavras e juras! Gostaria de escrever as rimas de uma paixão certa e concreta, cheias de detalhes e toques, cheios desse você que tanto detesto!



E muda deveria ter me mantido. Mas ao invés de me recolher no canto escuro da minha raiva de vê-lo desenhando em acordes, agarro-me ao microfone na certeza de que terei a voz e cantarei. 



Mesmo assim, só me resta o silêncio!

---x---x---x

Já não se escrevem mais cartas como antes. Tão pouco canções que brotem da caneta imaginária de um poeta sofrido.  Mas ela guarda letras embaixo do colchão. Esconde cartas amarrotadas que nunca serão enviadas. Criatura de outro tempo esta! Não pertence ao passado e assombra o presente. E se assim pode ser dito, só se constrói inteira em um futuro que imagina em diversos finais, montados e remontados, se deliciando com as possibilidades.



O calor dos holofotes faziam suar a testa. Minúsculas gotículas brotando pela pele. Disfarçadamente limpava o suor com as costas da mão direita enquanto sorria angustiada, procurando a primeira saída, a fuga perfeita. Mas encurralada que estava em seu próprio orgulho, balançava-se sobre os próprios pés, dentro de seus saltos vermelhos de camurça. 



Vestia-se de sua personagem indefectível de si mesma e agarrava o microfone, se deixando penetrar pela dor de um sentimento anunciado pelo primeiro acorde que ressoava. Quem assistia este segundo entre aqueles olhos fechados e a primeira nota, prendia a respiração em suspense exultante, em espera atenta, quase em um estado de paixão. 



E só assim, devorado, as mãos inquietas, torcendo os dedos em infindável anseio pelo segundo seguinte, tirano e consumista insaciável,  porque o presente nunca basta em si. Odiava a ousadia desafiadora, entregue a própria voz.



Embalada em notas e sonhos de outro tempo, cobre-me com poesia e desejos. Fecha os olhos enquanto canta, mas se sente incapaz de o fazer enquanto beija. Engulo o ódio que me dedica, e o amor que me recusa, junto com as palavras e notas.

segunda-feira, abril 30, 2012

Cárcere

Ela andava arrastando o meu olhar.

Colocava a mão fechada na curva do quadril por puro deboche da minha cativa prisão que balançava junto à cadência de seu andar de nuvens, enquanto eu tropeçava em desejos maltratados.

Prisioneiro conformado, agradeceria ajoelhado se fosse preciso o fato de estar algemado aos olhares descrentes da carcereira faceira que havia arrumado na esquina da Rua São José, que me negava o pão e a água, mas não o perfume de seus cabelos, pois este a graça era quem concedia!

A mim dedicava a ilusão de me ignorar por completo, mas enchia-me o peito de alegria ver que espiava hora e vez se lá me mantinha obediente, mirando sem fim o movimento da sua cintura. A certeza de que lhe sou devoto rega sua vaidade, disto nunca tive dúvidas, todas gostam. E negam... (É claro!).

Chegava sempre antes que ela entrasse para o trabalho. Ria-se alto como se para anunciar que agora eu poderia respirar. E se não durmo pela noite é culpa destes versos sem rumo que ela cantarola durante o dia inteiro e que povoa meus pensamentos pela noite.

Atrás do balcão daquele bar ordena como a uma orquestra afinada, xícaras e açucareiros, pratos e talheres. Sento-me, como sempre, na mesa do canto esquerdo, com visão privilegiada para o decote de sua blusa estampada, que se insinua abusado quando ela manuseia os botões gastos do caixa emperrado.

As saias eram uma atração à parte. Sempre longas e marcadas na cintura. Sua favorita era a azul. Tecido já meio puído, de um algodão fino que a luz do sol que entrava pela porta denunciava as coxas roliças por dentro delas.

Nem vulcões na Indonésia, nem aurora boreal na Antártida, o melhor espetáculo da terra poderia acontecer a qualquer minuto na minha frente, bastava que ela passasse languida entre as mesas e a sua saia, que até parece que tinha vontade própria, volteava displicente e me tocava a perna. Por esse arrepio pagaria com a alma!

Passava boa parte do dia fitando-a por trás das folhas do meu jornal de ontem. Ornada em avental e toda revestida dessa ideia malograda de mulher casada e descente só para me atormentar. Honestidade a toda prova. Adição de mazelas ao meu rosário de malfeitos. Sou homem de poucas convicções, mas uma delas é de que o simples não poderia ser pecado. Porque a beleza não merece contraditório.

Dona dos meus suspiros, ela torcia a boca de leve quando alguém lhe lembrava da minha existência silenciosa naquele mesmo canto todos os dias. Relhava com todos e pediam que fossem procurar o que fazer, pois ela tinha e muito. Dava as costas e se ria solitária e furtiva do meu desconcerto.

Servia-me o café e depois enxugava as mãos no avental batendo duas a três vezes. Não fazia perguntas, não me olhava dentro dos olhos. Mas deixava de propósito que uma gota de suor caído de sua nuca escorregasse entre os seios, enquanto eu inspecionava seus gestos e lhe retribuía com meio sorriso sem graça abandonado nessas olheiras de consumição, mal escondendo a ereção infantilmente disfarçada pelas minhas pernas cruzadas e o jornal amassado.

Ela faz não notar por travessura medida, mas domina todos os meus sentidos pelos controles remotos dos seus quadris e durante o dia vai apertando meus botões com aqueles seus olhos pequenos. Mas não ligo que ela me maltrate. Não ligo com quilos que já perdi apenas para lhe escutar respirar, pois estou certo que sou eu em quem ela pensa quando banha-se de água de perfume ao acordar, e que são para mim os versos de amor que cantarola o dia inteiro. Não me importa que ela me inunde de veleidade, contanto que me guarde um lugar em seu travesseiro, no escuro e secreto recanto de seus prazeres serei eu que lhe despirei as saias e lhe rasgarei a blusa, que lhe causarei sorrisos escorridos e lhe arrancarei gemidos.

No fim do dia ela admira-se no pequeno espelho de moldura laranja ao lado da porta da cozinha e tenta recompor os cabelos presos no topo da cabeça. Por um breve momento os solta por completo para logo em seguida reorganiza-los apressadamente no mesmo penteado. Nesse breve intervalo, entre soltá-los e prende-los novamente, sou homem refeito. Imagino-me levantando da cadeira na mesa do canto esquerdo, cruzando as demais mesas em reboliço, e segurando forte aquelas crinas negras entre os dedos, respirando profundamente o cheiro doce do seu suor e beijando seus lábios de espanto.

Antes de deixar-me largado envolto nos meus sonhos ela dá um adeus gentil para todos e me lança um olhar triste de soslaio que só eu percebo e agarro como se me lançasse uma rosa teatral. Depois segue descendo a rua e arrastando minha vida.

Imagem:http://www.bancodearte.net/dias-ramos/lavadeiras/
Ao som de: Jorge Drexler (Un Lugar en Tu Almohada) - http://www.youtube.com/watch?v=UzwraaGDeXY&feature=fvst

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Carbono


Sente falta do tempo onde tinha que colocar papel carbono na máquina para copiar letra por letra todas as palavras. Gostava principalmente da força que colocava nas teclas, cada batida e o som abafado das folhas.

Um tanto questionável esse seu gosto pela dificuldade da cópia, quando todos os seus sentidos são forjados, imitados por adequação. Nunca encontrou dentro de si o que pudesse chamar de original ou selvagem. Sente falta de instintos.

A maior parte dos motivos são pouco lógicos, e na maioria egoístas, e nem por isso menos legítimos. Conhece pessoas que adotam alguma razão para justificar escolhas muito mais absurdas, e nem por isso mais ou menos condenáveis.

Então sorteia alguma razão da urna dos motivos e a ela segura forte entre as mãos e segue. Tergiversando no meio da festa, barulho e som alto, adotando a melhor das performances das simpátias copiadas e sente-se beijada pelo beijo alheio.  O dele. Sempre o dele.

“Boa noite”, beijos e cumprimentos. Corpos balançando no ritmo da música que gira. Olhares de cumplicidade dirigidos aos olhos que o tocam no outro canto da sala, e tocam a ela na mesma medida. Uma sintonia forjada, uma história inventada para substituir a que não viveram, para apagar, para regar a memória de um esquecimento, para isso e para além, coloca-se distante, e ao mesmo tempo próxima dessa imitação. Do arremedo da constância.  

É fácil distinguir aquilo que é copiado, e ela o sabe bem. A consciência trinca seu espelho. Irritante essa imprecisão, esse vazio entre as vírgulas. Ainda mais angustiante por não pertencer ao laço dos sorrisos, que é como um tear invisível, criando fios um a um, tecendo um laço entre uma ponta e outra, de quem dá para quem recebe. Retribui na mesma moeda de um gesto sem explicação, herança de um antepassado que não traduzia em palavras o que sentia e transmutava em músculos e dentes o que não sabia dizer. Ele é todo músculos e dentes.

Ele abraça o primeiro corpo que lhe aparece, e o mesmo ela o faz. Enreda os dedos por entre os cabelos de uma moça embrulhada em ilusão, e ela o repete no outro canto, com outra alma passageira e ávido por uma gota de desejo qualquer. Assim seguem uma coreografia espelhada de gestos, prazeres e desgostos.

Suas cópias são melhores que as dele, e ela não sabe se deve se orgulhar disso, mas de alguma forma regozija-se, qualquer um pode perceber pelo olhar furtivo que ela lança ao lado oposto da sala. Talvez por acreditar muito mais, talvez por usar da mesma força que lembra que empregava em cada tecla das letras da sua antiga máquina de escrever. Forjando as melhores palavras e agora os melhores sentidos.

 Mas ele ainda assim sorri parado, atado em outros braços, naquele mesmo canto de sala, deixando a mostra tudo o que pretende inexistente, desafiando a ordem, expondo os recantos secretos onde esconde a existência dela dentro dele.

Por vezes se surpreende no mesmo devaneio de sempre, se perguntando se essa sombra, esse papel copiado, será tudo que terá. Mas continua esperando pela simples falta de ponto nas frases. Lançando migalhas aos pombos gordos na frente do seu prédio. É o mesmo que faz com ela quando ele usa desses infinitivos.

Ela é a cópia, o espelho. É a cria do desejo, é o beijo que nunca foi dado. Marca indelével da própria criação.

E assim estão unidos, o original forjado e a cópia da invenção. Os dois são fantoches, imitadores do amor alheio, esse será sempre o papel que terão um em frente ao outro. Fazendo da vida uma folha de carbono, copiando atos e sentimentos, tornando da vida própria a alheia, escolhendo lados, mas sempre inversos e ausentes.

Tarde ao som de: Someone Like You - Adele/ Take it All - Adele

sexta-feira, janeiro 20, 2012

As Portas

Esse texto já estava "rondando" minha cabeça há muito tempo, fico feliz de hoje ele finalmente ter parado de me "assombrar" e aparecido por completo!

Escutava o barulho do ponteiro raspando com dificuldade entre a passagem de um minuto para o outro. O barulho oco dentro do apartamento ainda parecia muito mais razoável do que o ronco do seu estômago reclamando atenção, já que tinha negligenciado à hora do seu café matinal apenas para ouvir o tilintar da xícara, e o girar lento da colher dissolvendo o açúcar.

Adivinha um meio sorriso de satisfação que seria seguido de um olhar pela janela avaliando o tempo, e hoje estava nublado, certamente ele levaria consigo o guarda-chuvas, pensou. Logo depois ele olharia no espelho e passaria os dedos pelos cabelos pegando as chaves ruidosamente, neste exato momento, e por fim abre a porta que reclama o abandono de seu dono rangendo, e a fecha com uma força desnecessária, para depois sair vagarosamente pelo corredor, montado nos mesmos passos firmes de todos os dias. Fim do primeiro ato. Respira fundo.

Só agora atende ao apelo convulso do seu estômago e serve seu café morno, e vai bebê-lo próximo da janela, oculta pelo voal branco, comodamente fechado, enquanto assiste ele distanciando-se na rua, e já espera seu último olhar para cima, como se tivesse acabado de lembrar que se esqueceu de algo no apartamento e que restará esquecido, quem sabe lembrará amanhã. Fim do segundo ato.

Essa é sua dança, uma coreografia que já pintou tantas vezes na sua cabeça que por vezes se pega imitando os gestos que imagina dele, e girando a chave no mesmo momento que ele o faz, mas jamais ousaria abrir a porta.

Acredita no absurdo, que já usam uma comunicação sem palavras. Sua porta e a porta dele, bem em frente da sua, que se fitam sem remédio e sem desculpas, pela pura falta de sorte de não poderem fugir desse destino de assim estarem. Abre, bate, fecha, trava. Seguido. Sempre na mesma ordem. Não confia nas fechaduras, mas nesse ritmo que segue para fazer essa seqüência de ações que sua mente classificou como essenciais. É quase uma música. Uma orquestra inteira quiçá. Imagina-se igualmente dançando. Treinando sem cessar rodopios seguidos. Sente-se leve com este pensamento e até sorri.

Imagina que lamentável destino que tem a sua porta branca, que agora finalmente é aberta para que a sua dona a abandone para suas obrigações do dia. Repara no número que precisa de conserto. Um 6 meio torto que parece tão triste e solitário quanto ela. É sua vez de olhar uma última vez, mas para a porta dele de cor escura, com aquele 9 altivamente irritando-a por ser guardião intransponível de tudo que ela mais deseja.

******
Espera o despertador tocar, mas já está acordado a tanto tempo que tenta recordar se chegou a dormir algum minuto daquela noite. Mas sente-se aliviado de finalmente não estar atado ao compromisso de sonhos rebeldes, nos quais se vê em uma repetição sem fim dos mesmos gestos.

Entra no chuveiro com todos os vestígios desses pensamentos e espera que a água o redima para o resto do dia. Prefere-a gelada e imagina-se um faquir por sentir como se milhares de espadas o transpassassem o corpo inteiro. É a dor que o devolve para a sensação de algo que ele costuma chamar de realidade.

Desenvolveu o hábito de revisar mentalmente a agenda do dia enquanto está no banho. Já há algum tempo sente-se tão ansioso por esse início de manhã, sem saber exatamente por que, que já se percebeu velejando por imagens e lembranças que em nada se relacionam com seus relatórios e prazos. Dia desses quase aceitou o conselho de um amigo que receitou alguns patoás feitos por um ubandista no Flamengo. Crê-se assombrado. Mas não consegue evitar a lembrança da imagem dela diante dele. Os cabelos loiros soltos e caídos sobre os ombros.

E perde-se nesses pensamentos tolos de o que ela deverá estar fazendo neste momento, enquanto displicentemente fica a girar o açúcar no café recém passado. Pensa que ela deve estar a espreguiçar-se languidamente sobre a cama, ou a escovar os cabelos lentamente ou quem sabe saindo do chuveiro e imagina ainda que o frio da manhã a deixa arrepiada. Sacode a cabeça energicamente como se tentasse acordar mais uma vez.

Recolhe a pasta, documentos e chaves. Para no espelho e repara nas olheiras pesadas e cada vez mais profundas sobre seus olhos. E se permite pensar que ao bater a porta ao sair, ao menos assim, estaria chegando de alguma maneira também nos pensamentos dela, nem que fosse incomodando-a na leveza da manhã que ele imagina. Cada dia bate mais forte a porta sem se perceber disto. E fecha os olhos imaginando-a franzir a testa com o barulho. E essa imagem o satisfaz. Espia uma última vez a porta do apartamento 6 e pensa em um dia bater. Só nunca consegue imaginar o que seria depois. O que diria. Nunca acha palavras, nunca encontra coragem.

Segue perdendo-se no corredor e depois pelas escadas apressadamente e seu coração bate tão forte, e prefere pensar que aquele esforço matinal de descer dois lances não está lhe fazendo muito bem, precisa fazer exames médicos, quiçá mentais! Finalmente alcança a calçada. Respira fundo e vira em direção à janela dela. E lá está. Bebericando café como todos os dias, linda visão escondida atrás daquele voal. Imagina se um dia acenará para ele, e imagina que guarda um sorriso para ele todas as manhãs. Não hoje. Quem sabe amanhã...

E termina por desaparecer.

terça-feira, novembro 22, 2011

A Cena

Depois de muito, muito (MUITO) tempo depois, eis que retorna ao Brincos o projeto cruzado de escrita entre o meu amigo Hecton e eu. Dessa vez assistimos a mesma cena e dela partimos para o desconhecido! 

Entre o concreto e o cinza, meu pensamento se dissipa entre um tom e outro. Queria poder, bem de longe, imaginar, ou melhor, entender o que você está pensando agora.

Ainda não sabia para onde deveria ir. E até estranhava esse pensamento do “dever” ir, essa obrigatoriedade estranha depois de tudo que vivi nos últimos dias. Os caminhos são iguais, as pessoas são iguais. E imaginava encontros ansiosos das mais variadas maneiras entre todos os personagens que me cercavam, mas eu não cabia em nenhuma das cenas, não cabia em nenhum dos abraços. Não pertencia nem sequer a mim mesma.
Mesmo assim caminhava envolta nesses pensamentos que me arremessavam do passado diretamente para um futuro cinza, sem parada que justificasse esse presente, e por isso pisava com toda a força dos meus pés nesse caminho sem rumo, como se para sentir minha existência pelo próprio peso, sentindo o ressoar de meus passos dentro do meu peito aberto, escancarado. Pegadas imaginárias sobre o concreto, era o que precisava seguir.
A bolsa começa a pesar-me pendente na mão direita. Tentei lembrar o que estava levando dentro dela, e se algo mereceria realmente ser carregado. Um batom vermelho, papéis amassados, algum dinheiro e um cartão dele escrito com sua letra, apenas as iniciais. Não era preciso nada mais. Só aquelas iniciais.

Não que os sons das curvas sejam mais altos do o que ouvi de você há alguns dias. Mas por ter certeza que precisava correr de encontro a você para sentir isso. 

Enquanto passavam por mim os reflexos de imagens que não entendia, e até o ar me faltava, tentei te encontrar entre tantos rostos iguais e diferentes.
Penso ser um eco de meus desejos ou a loucura já habitando meus pensamentos. Minha lembrança insistente e incoerente que o quer de volta ali, ao meu lado, pondo passos no caminho, contando polegadas ou milhas, não importaria, apenas queria que realmente fosse ele. Mas escutei novamente chamarem-me. E é ele. Sorrindo sem sorriso. Parado e resgatando-me de dentro dos meus próprios olhos. 

Talvez o calor do seu corpo seja o bastante pra mim. Nada além do que esperava, enquanto o taxímetro girava... E a paixão se estagnava. E em um minuto, ao sentir o vermelho dos seus lábios, o tempo se rasgou entre o antes e depois desse segundo...

Aquele abraço que imaginei segundos antes de tantos encontros alheios agora era seu. E não sei bem porque me doeu tanto. Todos os ossos do corpo, cada músculo se entregou a uma dor extrema, mas mesmo sendo dor, era perfeito, e era tudo que gostaria de estar sentindo naquele momento. E ele beijou-me. Como se quisesse dizer tudo o que nunca poderia ser dito ou explicado. Depois me devolveu àquele lugar. Pôs-me em pé sobre as minhas pernas e pés, e ao redor voltei a ouvir o barulho da rua e a conversa inteligível das pessoas. Distanciava-se sem ter coragem de dizer adeus. Não seria necessário, pois eu sabia que ele estaria para sempre em mim.

E se tivesse durado mais... Mais que esses instantes não seria tão perfeito quanto o gosto dos seus lábios...

sábado, outubro 29, 2011

Quem não tem visão...


Se tem uma coisa que não perdi foi a capacidade de me surpreender com o nosso potencial para interpretar o silêncio alheio... Era olhar para um terceiro em silêncio, entender tudo, olhar para você e, sem falar nada, perceber que você também tinha visto o que vi. Nada era dito, mas tudo era compreendido.

Isso é muito pretensioso, eu sei, mas o mais curioso não era enxergarmos no escuro e ouvirmos no silêncio, mas sim que víamos as mesmas figuras distorcidas e ouvíamos as mesmas melodias desafinadas, fosse ou não a verdade, fosse ou não o certo. Mas, decididamente, era o nosso certo e não questionávamos isso.

Confesso que me peguei muitas vezes duvidando de que pudéssemos passar tanto tempo sem treinar nossas habilidades interpretativas e mesmo assim, um dia qualquer, perceber que elas continuavam lá. E qual não foi minha surpresa ao perceber, naquele reecontro, que elas pareciam até mais apuradas. Não vou dizer que elas estavam apuradas como um vinho bom porque isso representaria melhora e, certamente, aumentá-las é enxergar com mais clareza, mais dor.

Senti pena de você por perceber que, mesmo conversando sobre vida e morte, seu olhar e seu sorriso eram como se estivéssemos falando amenidades. Me envergonhei. Pois vi no seu olhar que eu também falava sobre profundidades sem energia para mergulhar, ficando só ali, na beira, por achar que não vale a pena, por achar que já sei o que tem lá no fundo, por achar que, mesmo não sendo o que acho que é, o que tem lá não vale a pena ser visto.

Mas também pensei que não deveria sentir pena de você ou vergonha de mim, pois ali não havia julgamentos ou dedos em riste, e sim a mais incompreensível compreensão mútua. É estranhamente confortável pensar que, mesmo falando sinceramente sobre assuntos próximos, falei quase nada de mim, mas você entendeu tudo e enxergou aquilo que eu queria estar dizendo, mas não disse com palavras, disse com silêncio.

E não preciso me justificar por estar escrevendo o óbvio. Obrigada.

terça-feira, outubro 18, 2011

Quem não tem colírio...

Atrás dos nossos óculos escuros estava tão claro como era necessário e prefeito.

E nos reconhecemos nus por trás daqueles óculos. Felizes e nus. Cumplicidade dos iguais.

Acho que perdi a prática em disfarçar sorrisos. Estou mesmo enferrujada velho amigo, em ser algo próximo de mim mesma e também de ser algo distante, você sabe, essa suavidade às vezes me irrita,mas cai bem, assim sempre me disse e depois de ter me vestido dela, sei que estava certo... Fico me perguntando se a minha alegria em lhe ver foi tão irritantemente óbvia quanto eu creio que foi. Odeio, e ao mesmo tempo adoro, dizer que a sua também foi igualmente inequívoca. Shhhhh... Que nossos óculos nos protejam!

Será que me permite ser simples?Estava com saudades e senti muitíssimo sua falta. E teria tantas coisas para dizer que não caberiam no mínimo espaço entre mesuras e composturas que nem vale a pena lamentar por não ter sido ditas e nem vou tornar disso uma lista interminável. Quero mais que seja uma ode ao prazer simples do reencontro. 

Sei que pensou exatamente as mesmas coisas que eu no primeiro segundo. E nem sei se é necessário descrever o alívio da ter certeza de saber que você me lê como quem aponta o dedo e desliza pelos traços de um mapa conhecido, do qual sabe todas as trilhas. Não. Não é necessário. Nada é imperativo aos que se reconhecem. Não sei se confissão ou constatação, mas tenho a nítida sensação que nos encontrarmos é como finalmente chegar. Assim, no infinitivo. 


Ao som de Little Joy - Keep in Mind - (http://www.youtube.com/watch?v=qJCNKxt3VLA   )