segunda-feira, julho 17, 2006

Superman - O retorno



Sábado à noite e hordas de jovens (chamar alguém de jovem não é o cúmulo da caquetice??) na média dos 15 anos fazendo fila para ver o novo Superman Returns. Até ai tudo normal, sábado, cinema, fofoca e pipoca combinam, mas ver a garotada aplaudir no final do filme surpreendeu (e veja que eu estava em João Pessoa e não em Campina para os maldosos de plantão! “Afinar, nois somo matuto mais nois somo jóia!”).

Como é que aquele cara de cueca por cima da roupa e capa vermelha pode ainda comover a geração PlayStation?
Talvez o único capaz de responder esta pergunta seja o diretor Bryan Singer, que também dirigiu os igualmente bem sucedidos filmes X-Men e X-Men 2, o que deu um excelente know-how nos roteiros baseados em quadrinhos. Mas diferentemente dos dois anteriores, que lidavam com o sentimento de inadequação, (e muita porrada, é claro!) comum à boa parte da faixa etária em questão, esse filme fala de solidão (além do fato de ter menos pancadaria)...

E para me fazer entender menos ainda, pensando eu que iria encontrar um filme de visual ultra Hi-Tec (tipo o último Homem-Aranha), o diretor optou (e fez uma ótima escolha, diga-se de passagem...) por respeitar o passado da capa vermelha, com um visual ligeiramente retrô, das roupas até o clássico tema da saga (tan-tan-ram, tan-tan-tan-ran... Fiozinho na barriga...).

Não teve como não se sentir um pouco nos antigos episódios do início dos anos oitenta com o eterno ‘Super’ Christopher Reeve. Ah, e por sinal, não dá para deixar passar desapercebida a incrível e ‘coincidente’ semelhança do ator Brandon Routh com o saudoso Reeve, o fazendo lembrar não só fisicamente como nos gestos e na voz.

Claro que também é necessário confessar que só fui ver o filme porque recebi um e-mail que entre outras ‘curiosidades’ dizia que todas as cenas do Brandon tiveram que ser tratadas no computador, pois ele com aquele colan estava, digamos, ‘viril’ demais, muito volume na cuequinha... (risos)

Pois é, olhei mesmo, não teve como evitar... O diretor disse que esse foi o boato mais bizarro que já ouviu, afinal eles não iriam gastar milhões de dólares para alterar esse ‘detalhe’ digitalmente (pois é, Emplastro Sabiá existe para quê, né?)... Boato ou não, o Brandon é realmente lindíssimo, encaixou perfeitamente no papel e ainda ficou ótimo na roupinha!

Um filme que vale a pena conferir.

terça-feira, julho 04, 2006

Brasileiro não desite nunca! (É mesmo??)


Fico pensando se o brasileiro gosta mais de futebol ou de feriado. Questão difícil de responder... Principalmente quando as duas possibilidades estão aliadas e um país resolve parar para assistir os jogos da Copa e ainda um meio feriado de lambuja ao sair do trabalho às 3 da tarde, dando aquela escapadinha estratégica que irrestritamente todos ansiavam.

Febre Amarela nas ruas (mas para essa não creio haver vacina), moda momentaneamente nacionalista, e gente cantarolando “Euuuu.../ Sou brasileiro/ com muito orgulho/ com muito amooorrr...” Nem dá para não dizer que é ilusoriamente comovente....

Está certo que tem aqueles ‘do contra’ eternos que torcem até para a Costa do Marfim, mas não dão o braço a torcer para a camisa amarelinha, mas no fundo (respeitosamente no fundo) bem que ficam vibrando contidamente mesmo com aquela cara de raiva quando o Ronaldinho Gorducho marca um golaço!

São poucas as coisas que vejo os brasileiros se envolverem, para listar pela ordem de comoção: Futebol, final de novela e oportunidade para chamar político de ladrão (e isso é o que não tem faltado!!!). Outro dia mesmo escutei uma dona de casa no supermercado discutindo as táticas de jogo do técnico PEREIRA!!!

Eu da minha parte sou uma torcedora sazonal genuína. Só de 4 em 4 anos, e olhe lá. Mesmo assim ainda me arrisco nas discussões de mesa de bar discutindo os quilos a mais de um, os anos que sobram do outro, as zebras e os favoritos...

Em falando de favoritismo, sempre tive minhas teorias pessimistas por natureza que favorito no Brasil só se... Alguém ai lembra do Fernando Pessoa e o cavalo Baoloubet du Rouet? Refugou! E a Diane dos Santos e suas piruetas nas olimpíadas? Refugou! E o time do Brasil? É claro que vai refugar!!!

O Brasil em silêncio na frente da TV, e advinha? O time refugou! 1X0 para França e desta vez sem convulsão, água batizada, ou qualquer teoria da conspiração para justificar...E sim um time apático, coordenado por uma guerra de egos, que carregava nas costas (além de milhões em patrocínios publicitários) a esperança de um povo inteiro movido a pão e circo (e onde está o pão mesmo???) bem no ano eleitoral (desespero em Brasília)...

Depois da derrota, de toda a decepção ainda escutei gente dizendo que daqui a quatro anos ‘agente leva’ e vai ser hexa! Que se o Brasil perdeu não tem problema não, ao menos os nossos ‘hermanitos’ voltaram um dia antes!!! Ainda tiveram outros que já até adotaram outras seleções (como a de Portugal e o nosso velho conhecido Felipão).

A frase publicitária do Governo Federal afinal até faz algum sentido, brasileiro não desiste nunca (Lula que o diga)! O único problema é que na nossa seleção (naturalizados Espanhóis a parte), contam-se nos dedos quantos dos convocados ainda são realmente brasileiros...

Não se pode dizer que do lado de cá do oceano não se apelou para tudo; patuás, mandingas, todos os santos, meia velha da sorte... Mas nem todas as formas geométricas incluindo quadrado mágico, que ‘estrategicamente’ virou triângulo mágico e mágica que é bom... Minha opinião de ‘expert’ é que deveríamos ter jogado com, no mínimo, um decágono mágico... Afinal seleção no sentido mais real da palavra, tivemos, mas os poucos escolhidos nunca foram o que no futebol há de primordial, um time.

segunda-feira, junho 26, 2006

A dança



Sorriso de todas as intenções dedutíveis. Passos lentos do aproximar de corpos que não se permitem.

E do instante fez-se o agora, e da palavra memória ausente. De real a sua voz intrusa raspando no meu ouvido, repetindo suplicante o meu nome, arfante... Repetindo, repetindo, repetindo como se quisesse entrar em mim assim... E entrava... No ritmo do ofegar, banhada pelo hálito quente no pescoço, derramando desejo intenso de ter, de mais, de absoluto, de tanto, de tudo, que faz saber que o devorar é pouco...

E sem saber, eu sei o quando me quer, e sem saber eu sei dançar a tua dança. E no roçar das roupas cheias de mãos, flashes de gestos desconexos, fechando os olhos cheios de ti e sentir o vibrar do teu corpo como cordas de um violão, arrepio que te embala ao deslizar meus lábios que pulsam, que chamam e mordem os teus por capricho, e os torna a ponte dos atos e dos desejos.

Tua mão inteira me conduz fechada na curva dos meus quadris gemendo cativo das ondas da minha fúria, desse meu sentimento guloso de ti. Suga o ar gélido que entra no teu sangue, e percorre o teu corpo que arde, experimenta da vontade obtusa quando afasta as minhas pernas cheio de "ais", esvaindo-se todo enquanto a tua boa me sussurra na orelha: "Não deixa, não deixa..."

sexta-feira, junho 16, 2006

Papo Calcinha



Dia desses um amigo me confessou que a maior redenção das horas a fio que um homem passa tentando derreter o juízo de uma mulher é quando finalmente consegue abrir o zíper da calça dela deixando aquele singelo lacinho dar as graças ao mundo...

Eu, da minha parte, nunca tinha pensando em quanto poder os nossos lacinhos podem ter, o fascínio, o fetiche que podem provocar... A pesar de ter inconscientemente (alguém acredita???) exercido algumas vezes, necessário confessar...

Ah, benditos lacinhos!!!

E se eles soubessem (e que não saibam, e se souberem que esqueçam!) que nem sempre existem lacinhos sensuais e sempre dispostos a ‘entrar em campo’? E se eles soubessem que tem dias que saímos de casa com aquela calcinha enorme bege (desculpem a grosseria, mas essa não vai dar nunca!) e que a maioria odeia usar fio dental, ou que aquele monte de babadinhos convidativos na maioria das vezes só faz pinicar?
Quem nunca ficou semi-histérica com a calcinha indo parar em lugares aos quais não foi convidada? Quem não deu aquela "puxadinha" básica dentro do elevador? quem não tem aquele calcinha velhinha, quiçá com algum furinho, de estimação?? Quem nunca passou por uma "calcinha justa" que atire a primeira pedra!

Mas não quero aqui arrasar o imaginário de ninguém, e por tanto, há de se dar o devido respeito à peça que evoluiu muitíssimo (felizmente!) desde o tempo das vestes longas, passando pela ostentação dos séculos 17 e 18 e seu verdadeiro arsenal de acessórios, até o início do século 20, chegando hoje a gozar dos benefícios da tecnologia e até da gastronomia (estão aí as calcinhas comestíveis que não me deixam mentir!!!). Então homens, podem ficar sossegados porque nem tudo é calçola folgada e bege nesse mundo!

E já que se trata de um papo calcinha, ou seja, feminino por excelência, e estamos falando dos nossos benditos lacinhos perseguidos, contem suas histórias calcinhas (as infortunadas e as bem–sucedidas também!), afinal, ninguém precisa se revelar!

sexta-feira, junho 09, 2006

As Sindromes



Achei por bem esclarecer aos infortunados leitores desse Blog os motivos de tamanha demora nas nossas postagens... (É verdade, pode não parecer, mas somos bem educadinhas!).

Eis que as colaboradoras do ‘Brincos’ estão sofrendo de algumas síndromes, que assim como as participantes, variam nos seus motivos mas pouco nos seus efeitos, qual seja, a loucura patente, semblante desorientado, atração fatal pelo exagero máximo, complexo de perfeição entre outras facetas menos glamurosas, que, reservamo-nos ao direito de ocultar, caso contrário poderíamos ser interditadas a qualquer momento...

Vejamos a primeira, que está sofrendo da síndrome do ‘casórium proximum’ e que segundo registros, diz que a vida dela só continua (ou começa, sabe-se lá!) depois da cerimônia... Ouvi dizer também que devido a alguns fenômenos estranhos, como acordar com a cama cheia de arroz, só enxergar vestido branco pela frente, estar meio neurótica sonhando com damas de honra, buquês e bolos ela resolveu temporariamente afastar-se um pouco de suas atividades literárias em benefício de sua saúde mental. Mas fica a promessa que assim que voltar da Lua-de-Mel vai aparecer por aqui com suas tiradas sempre inteligentes. (Boa parte é brincadeirinha, mas a verdade é que estamos com saudade viu Rhafinha!).

Nossa outra colaboradora, baratas a parte, está sofrendo da síndrome do computador... Diz que quer ver tudo pela frente, até o Lula com chapéu do MST, mas não quer ver a tela do monitor... É, eu sei, Lula ninguém merece, mas com os votos de pleno restabelecimento que desejamos ansiosamente a volta da nossa Luzinha em pleno vigor e seus textos sempre surpreendentes e criativos aqui no ‘Brincos’. (Também tô com saudade repetitiva viu Ló!)

Por último, esta interlocutora que declarou ontem em suas auto-análises-pseudo-freudianas que está sofrendo de Neo-Banzo...E ai fico só esperando algum analista escrever alguma tese robusta de 400 páginas sobre o assunto para justificar a real preguiça horrenda de escrever...

De qualquer maneira, qualquer hora pintamos por aqui, numa lua cheia, no meio da tarde de sábado, depois do cineminha, ou no casamento, quem sabe? Afinal, o difícil mesmo é nos deixar longe dos pitacos e devaneios...

terça-feira, maio 30, 2006

Traumas Infantis


Mesa de bar e doses não controladas de caipiroska em boa coisa não resulta, não é mesmo? Muitos assuntos 'profundíssimos' depois, e cansados de falar do problema da violência no Brasil, surgiu a sensata proposta de cadidatura de Marcola (Chefe do PCC) para presidência, afinal de contas o homem da noite para o dia acabou com o trânsito em São Paulo, reforçou o policiamento nas ruas, uniu os partidos em um objetivo comum, isso tudo por celular, imagina em um Gabinete...
Em goles mais amenos de bebida, opa, digo, de conversa, lembramos com certa nostalgia embotada das lancheiras escolares e as gorobas que nossas mães já nos fizeram comer ou beber tudo em nome de bochechas rosasdas... Eu da minha parte sempre tive trauma profundo da banana, dita saudável, que minha mãe colocava na lancheira, e quando abria na escola aquele cheiro inconfundível que dominava a sala e todos os outros coleguinhas com seus lanchinhos 'chiques' de bolachas recehadas, chocolates e sabe-se lá mais o quê... Ainda tinha aquelas garrafinhas térmicas que derramavam todo o suco e o sanduiche de queijo enrolado em guardanapo (no final os guris comiam papel e queijo achando que estava tudo muito gostoso, principalmente com o gostinho do suco que derramou, lembra?)
Mais traumático que isso só o famoso suco de beterraba-laranja-tomate e cenoura que nos faziam engolir guela abaixo dizendo que era para "ficar forte".. (urrrggg). Pois é, mais maluca que a minha mãe então era a de um amiga que incluia nessa receita "adorável" pêra.... Alguém sabe me dizer para quê serve a essa imitação de maçã????
Traumas ou não, ainda sinto o cheiro da lancheira só de pensar nela... Não sei se para ficar forte, mas ao menos serviu para alguma coisa....

terça-feira, maio 23, 2006

Decidindo

Decidindo como vai ficar meu humor hoje...

O dia vai ser longo...
A noite vai ser curta...
Minha pressão está baixa...
O dolar está em alta...
A economia está em queda...
É... E o meu humor certamente indo junto...

terça-feira, maio 09, 2006

Os meninos e seus brinquedos


(Semelhanças com fatos reais não são mera coincidência.)
Evo olhou para os quatro cantos e nada viu que pudesse fazer. Sentiu-se em uma situação que caso fosse adulto chamaria de impasse. Uma vontade enorme de brincar e sem ter com o quê.
Logo lembrou do coleguinha, que depois de ser pobre, iletrado e mal educado, agora era metido ao que sua mãe chamava de “novo rico”, sempre metido em roupinhas bem cortadas e feitas por encomenda, uma aparência eterna de juventude promissora. Origens iguais, casas vizinhas, mas uma enorme distância os separava.
O Luiz era um garoto engraçado, cheio de fases e manhas. Por vezes o viu passar na rua enquanto os outros garotos todos da vizinhança apontavam-lhe os dedinhos indicadores impiedosos o chamando de “radical”, mal entendendo o Evo o que diabos “radical” significava. Agora, muito mais “arrumadinho” os dedinhos de antes recolhiam-se aos bolsos, olhares voltados para o chão e fazer o quê? Agora o garoto estava por cima, maior casa do bairro e tudo mais.
Convidar aquela figura meio estranha para sua casa poderia não parecer a melhor idéia do mundo, mas só em pensar nos vários brinquedos que traria... Porque pensar duas vezes??? Meteu o a mão no telefone e estava feito. Dez minutos depois lá estava Luiz cheio de tudo aquilo que lhe faltava e que sua imaginação quase não conseguia alcançar.
Tudo muito bem enquanto o gosto de novidade era maior do que o de aborrecimento de ter que submeter aos caprichos do tal do Luiz. Foi ai que lembrou do que seu melhor amigo lhe disse: “O quarto é seu. Aqui é você quem manda”. O Huguinho era esperto, isso sempre soube. Encheu os pulmões de ar, e bravejou finalmente:
- “ Luizinho, o negócio é o seguinte, vai deixando esses seus brinquedos ai no chão e pode ir embora”
- “Hã???”
- “ É isso mesmo o que você ouviu, vai levantando logo enquanto eu ainda estou calmo e deixa tudo que você trouxe ai, porque o quarto é meu, e aqui sou eu que mando.”
- “Mas como é que pode isso, você me chama para cá, eu fico com você, trago todos os meus brinquedos e agora você me vem com essa?!? Enquanto todos os outros garotos nunca lhe deram atenção eu fui o único que sempre estive do seu lado. Somos tão parecidos...”
- “É, pode até ser, mas agora é assim, e se você ainda quiser os MEUS brinquedos, eu até que posso de alugar, mas o preço eu que faço... E nem adianta espernear porque chamo meu pai, minha mãe e até o Huguinho, você quer que eu chame o logo o Huguinho?? Se eu fosse você não faria isso... Vai ser pior...”
Depois de um pouco pensar, logo o Luiz viu que não haveria o que fazer. Levantou-se puxando as calças, e resignado disse:
- “Mas o que eu digo lá em casa? O que é que vão pensar de mim??”
- “Ah Luiz, isso ai é com você, mas vê se não volta chorando porque vai pegar muito mal, diz só que você acha até certo o que eu fiz, e que vai tentar negociar. Eles vão acreditar, afinal, aquele pessoal da tua casa acredita em tudo mesmo....”

quinta-feira, abril 20, 2006

Diário de um Cucaracha


A nossa história começa em 1963, no Paraguai, numa rua de notívagos de nome nao menos boêmio: Simón Cucaracha. Ele, que foi um grande amante dos bons charutos e das belas prostitutas francesas, em seus dias mais inspirados jamais imaginaria que a tal rua levaria seu nome.

Talvez nem tivesse orgulho, pois todo boêmio faz promessas vãs de sair dessa vida, e até vislumbra planos para tal dia. Mas a vida boêmia é quase como um dom, e dela os boêmios não poderão livrar-se facilmente.

E na semi escuridão de uma dessas noites bêbadas, estava lá outro personagem dessa história: o pai de Geraldo. E foi numa madrugada dessas de arroubos, suor e uns dois bons poemas que todo capadócio sabe de cor, que Geraldo foi concebido.

A mãe dele, que poderia até receber um nome se não fosse tão rapidamente desaparecer de nosso relato, derramou um longo pranto ao descobrir que os planos daquele boêmio não eram exatamente o de construir uma vida estável ao lado dela no Brasil. Ele, na verdade, tinha outros planos, que foram satisfeitos alguns minutos depois daquela conversa de sonhos.

Alguns meses depois, no Espiríto Santo, já em 1964, estaria Teresinha segurando no colo aquele rebento de pai desconhecido e de mãe inominada. O menino, que quase teve Teresinha como mãe, foi enviado para a casa de uma irmã dela, que tinha mais posses e propriedades e, portanto, boas chances de cuidar sem maiores afobamentos de um pequeno abandonado.

Consuelo nunca escondeu de Geraldo a sua procedência incerta, nem que a sua cestinha foi posta primeiramente na casa da Tia Teresinha. O nosso Geraldo, apesar de nao ter maiores problemas com a sua história de vida, sempre olhava para a Tia Teresinha e a imaginava como mãe, o que lhe era insuportável diante dos tabefes e beliscões que seus primos sofriam publicamente.

Teresinha não era uma pessoa esperta, sagaz, mas também nao era desprovida de alguma inteligência mediana. No entanto, todos na família a tinham em conta como pessoa de muita sabedoria e cultura. Ela não lembrava bem de onde surgiu o título, mas gostava dele e se portava como tal, e a essa altura do relato até acredita realmente que é mais esperta que os outros.

Ela não recorda, mas nós temos como voltar um pouco na história e revelar o momento em que Teresinha passou a ser tida como culta. Certamente ela não é a única pessoa que é tida por algo que não é, pois o que não falta no mundo é uma espécie de complexo de aquiles generalizado.

Vamos lá. Os aparentados de Teresinha sempre concordaram que ela era a pior pessoa para presentear em amigo secreto de final de ano. Não é vaidosa, o que exclui a maior gama de presentes femininos; não é afeita a serviços domésticos, o que excluía a porcentagem que restava para dar presentes a uma mulher nos anos sessenta.

O que ano a ano se repetia era a insatisfação pública de Teresinha ao receber o seu presente. Até que em 1967, quando Geraldo ainda era um bebê e por isso não tem como recordar a época em que Tia Teresinha nao era tão culta quanto hoje se sabe, o Tio Antônio, esse sim esperto merecidamente, comprou um livro para Teresinha.

E ao iniciar os enfadonhos elogios que se faz antes da entrega de presentes natalinos, ele inovou. Para o espanto das cunhadas perfeccionistas, o presente nao estava embalado. Era um presente para um homem, pensaram todas. Antônio levantou-se e teceu algumas considerações em torno do seu amigo oculto: "...É a pessoa de maior cultura, indubitável sabedoria, desde sempre conhecida por todos os familiares como uma grande conselheira, profunda conhecedora de diversas ciências!"

Todos, com exceção de Teresinha, que cochilava na cadeira de balanço, estavam curiosos ante a descrição. Ora, se não era o próprio Antônio, quem seria? Todos aguardavam invejosos o momento da revelação. Para o assombro geral, era Teresinha! A amarga e insossa Maria Teresa, que todos chamavam Teresinha, mas longe de ser por afeto ou baixa estatura, e sim pelo comum hábito local das Teresas serem logo transformadas em Teresinhas.

Ela se levantou e sorriu, recebeu o presente sorrindo, feliz pelos elogios e indiferente quanto ao livro. Ela é daquelas pessoas que quase nunca sorri, e que são tão sérias que os seus rostos parecem fazer careta quando esboçam um sorriso. Por isso, a cena de Teresinha sorrindo ao receber o livro jamais saiu da lembrança dos familiares. E assim ficou firmado um costume familiar: para Teresinha, deve-se dar livros, pois ela é a única verdadeira intelectual da família.

Ela, como ficou dito, gostava mesmo era dos elogios que eram feitos antes da entrega do seu novo livro. Mas ela, na verdade, nunca os lia. E até os organizava em suas prateleiras por tamanho e cor. Ora, todo mundo sabe que o que nao é contestado, confirmado está; por isto Teresinha gozou até a morte da fama de boa leitora.

Nesta família, como não raro ocorre também em outras tantas, todos carregam um estigma. Há o tio avarento, o cunhado incoveniente, a tia ranzina, a tia dócil, o primo solteirão, a prima bonitona. E Geraldo, já com 16 anos feitos, tinha um estigma desagradável: o primo adotivo e filho, quiçá, da puta!

Crispava-se de raiva quando os outros utilizavam sua cruz, quer para xingá-lo, quer para adotar uma conduta piedosa. Convicto de que algo deveria fazer para mudar este fato, Geraldo procurou nos livros de Tia Teresinha um termo polêmico, desses que exaltassem a luta contra os militares, mas que não fosse de óbvia compreensão. Afinal, ele não queria chocar tanto o Tio Antônio, que era militar, mas que ele tanto gostava.

Em sua casa, para evitar maiores confusões, após os parabéns cantados para a rica Consuelo, fez-se o incompreensível silêncio que se faz ao partir o bolo. E Geraldo, que não era covarde, mas que também não tinha maiores arroubos de coragem, gritou: "E viva os bolcheviques!!" Os pequenos o acompanharam no viva mesmo sem saber do que se tratava, e os adultos o olharam com espanto.

Após um breve silêncio, Tio Antônio, entre desapontado e desafiado, acabou com as expectativas em relação à sua reação e disse: "Ora, ora, ora, temos um revolucionário!" Deu tapinhas indulgentes nas costas de Geraldo e saiu. Esta foi a última vez que Antônio foi visto na casa de Consuelo.

Esse episódio foi suficiente para que Geraldo pensasse que ganhou o estigma de primo revolucionário. E isto o deixou bem feliz, mesmo ele se deparando com o impasse de não saber como agir tal qual.

Conversando com uma menina hippie com quem teve sua primeira experiência sexual, detalhe completamente desnecessário que nada construirá no relato, Geraldo perguntou como agir para parecer um grande revolucionário. A menina disse que ele deveria começar comprando livros. Ele não entendeu, mas ela deveria saber o que dizia.

E ele comprou muitos, muitos livros alternativos. Mas um pequeno problema tão comum foi o responsável por Geraldo não se tornar o sonhado líder que faria com que todos esquecessem o seu passado paraguaio: falha na comunicação humana. Ele comprava livros, como recomendado, mas os dava de presente, ao invés de lê-los .

O que Geraldo ganhou foi o estigma de grande presenteador de livros indesejados. E por isso, a cunhada organizadora do amigo oculto todos os anos dava um jeitinho brasileiro dele coincidentemente tirar a Tia Teresinha. Assim, todos ficavam felizes! E também assim, as prateleiras de Tia Teresinha foram ficando recheadas de livros aos montes, livros que ninguém lia.

Só que, vez por outra, algum parente com novas metas de início de ano começava a ler, mas não concluía, deixando uma pequena orelha em uma das primeiras páginas do livro. Apesar de ser uma família sem maiores hábitos de leitura, essas pessoas eram organizadas, e Tia Teresinha odiava orelhas nos livros. O que fazia com que todos ratificassem ainda mais a imagem de apreço que ela teria por seus livros.

Certa vez, o sobrinho moleque da família fez orelhas em todas as páginas dos livros de Tia Teresinha, o que resultou nuns dez ocos cascudos e numa atitude radical: Teresinha cortou as pontas de todos os seus livros! Assim, ninguém mais faria orelhas em livros tão intocados. A fama de inteligente que ela tinha era sempre reiterada por esse ou outro espasmo de loucura.

Tia Teresinha morreu em 1985, sem tirar uma grande dúvida que há alguns anos lhe afligia: por que Geraldo insistia em errar seu nome nas dedicatórias, escrevendo-o ora com z, ora com s? Ela não chegou a saber, mas nós, onipresentes no relato, sabemos, e vimos Geraldo comprando livros de sebos que já estavam dedicados. E algumas vezes era de um sobrinho Geraldo qualquer, para uma Tia TereZinha, e outras vezes, para uma Tia TereSinha, o que fazia com que ele volta e meia mudasse a grafia do nome dela.

É porque alguns anos passaram, e Geraldo já estava cheio de dar livros na tentativa de fazer pegar aquele estigma tão difícil. E por isso ele comprava qualquer um, revolucionário ou não, mas com uma dedicatória de um geraldo para uma teresinha ou terezinha quaisquer. O último livro que a deu, e isso ele jamais chegará a saber, ironicamente fazia alguma referência a seu passado paraguaio.

Era um livro de Henfil, que foi parar num outro sebo, vendido pela filha mais velha de Tia Teresinha que estava louca pra se livrar daquele amontoado de traças. Até conseguiu um bom dinheiro com a livrarada toda, mas jamais se livraria do peso na consciência de ter vendido livros dedicados. No entanto, se tivesse um hábito um pouco maior de leitura, saberia que outros tantos fazem isso.

Nós, no entanto, temos que agradecer a essa prima pouco leitora de Geraldo e filha ingrata de Teresinha, pela venda feita ao sebo, ou não estaríamos aqui a relatar essa história. O último livro passou por outros geraldos e outras tantas teresinhas, passou também por algumas marias, etc, etc, até chegar em João Pessoa, distante de seu passado ingrato e de seu estado suprimido entre outros fortes.

Até que uma estudante de direito, que também mereceria um nome se não fosse tão corriqueira sua passagem no relato, assustou-se ao ver uma barata enorme sobre um livro de Cecília Meireles. Os sebos são mesmo muito sujos. Ela olhou melhor, era sua miopia lhe pregando peças, a barata fazia parte da capa do livro.

Pegou com atenção aquele estranho livro sem as pontas das páginas, dedicado a uma tal Teresinha. E decidiu ao ver o nome Henfil, alguém por quem tinha grande admiração, que era aquele o presente que ela estava procurando tanto para dar ao seu amado. Mas essa é uma outra história.

quarta-feira, abril 19, 2006

O Conforto das Razões Inexplicáveis


O Conforto das Razões Inexplicáveis



Sento-me na frente da TV esperando a próxima desculpa esfarrapada pelo atraso dele desta vez, e lembro de uma história muito antiga que uma vez me contaram sobre a origem da satisfação masculina de correr junto com mais outros tantos homens suarentos por mais de uma hora.

Diz a lenda que existia um ritual antiqüíssimo , originário dos povos ‘Futibulis’, na região comumente conhecida como ‘Gôles’, imagino que próxima, muito próxima da atual Mongólia.Consistia em uma simples e rudimentar ritualística, onde os machos da tribo componentes da seita secreta vestiam-se e paramentavam-se para a execução dos atos a ela concernentes, com o objetivo de livrarem-se de todos os pensamentos racionais, algo que em outras filosofias se repete, citando-se como exemplo a busca pelo nirvana.

As posições exercidas por cada um dos mebros eram bem delimitadas na ritualística, variando de acordo com as habilidades demonstradas, papel de liderança, e, é claro, a hierarquia ‘Futibulis’que poderia ser determinada ou identificada através do título de ‘Dono do Círculo de Adoração Sagrada’, que dizem os historiadores, tratar-se do que hoje inofensivamente chamamos de ‘bola’.

Durante o curso da celebração, todos corriam em uma área aberta em formto retangular gritando palavras incompreensíveis, gesticulando e suando, e se possível, tendo o máximo de contato físico de canelas com canelas até que esta região do corpo ficasse roxa e bastante machucada. O ponto alto do ritual era quando um dos membros da seita secreta conseguia habilmente introduzir com bastante estardalhaço o ‘Circulo de Adoração Sagrada’ em um grande retangular altar. Neste momento, todos gritavam, faziam gestos ou jogavam-se uns sobre os outros até que alguém sufocasse.

Findavam-se todos os atos com a emissão de um som mágico emitido pelo ‘Grã Mestre da Sabedoria’, que segundo estudos ritualísticos trajava-se de sempre de preto, mas nem sempre era um indivíduo bem quisto entre os demais. Exaustos, machucados e sujos, bebiam em comemoração um líquido alucinógeno de coloração amarelada e espumante e que deveria ser servido gelado.
Sinto-me muito mais aliviada hoje pelo homem ter evoluído desses tempos inglórios. Só assim não preciso tentar explicar aquele sorriso estranho do meu marido quando ele me chega atrasado toda terça á noite, suado, sujo e arrebentado e mesmo assim satisfeitíssimo. Tira as chuteiras e as meias, me mostra uma unha estropiada e roxa, olha para mim feliz e diz: “Acho que essa vai cair”.