terça-feira, julho 26, 2016

Passos

Notas: Esse texto é daqueles da modalidade "what *@#%#!%*", pois apareceu inteirinho às 4:00 da manhã de uma terça-feira comum. Não custa adicionar a informação que não é biográfico, e que bem que eu queria que fosse mais suave, mas não era... Então "sorry"... Vai sair assim mesmo.


Na verdade a história era bem maior, mas temos de convir que foi o que deu para fazer de melhor na adaptação para texto curto às quatro da matina escrevendo no monitor do bloco de notas do celular! rssss (Saudades do tempo que eu rabiscava em folhas de papel com letra ilegível e jogava debaixo do travesseiro ou da cama e só ia encontrar no dia seguinte! Maldita tecnologia! rsss)


Tem outra coisa. Favor escutar ao som de Mil Pasos de Soha. Simples assim. E cumpre ainda esclarecer que a trilha veio depois de escrito mas nunca vi tão perfeita! Então adaptei algumas coisas no texto para casar legal. Então a trilha virou indissociável.


Imagem:http://www.deviantart.com/art/E-Lovers-7376197

Trilha: https://www.youtube.com/watch?v=dm_TzKprOls



Passos...

Acordou no meio da noite suado... Em um sobressalto incomum ao sono pesado da sua diária exaustão habitual. Ainda estava em sua mesa, sentado na sua enorme cadeira de trabalho. O nó da gravata parcialmente desfeito. A tela do computador ainda ligada indicando que havia se deixado adormecer com as tarefas inconclusas que nem sequer lembrava exatamente quais eram tamanho o torpor do sono que lhe abateu. Olhou ainda atordoado ao redor e se viu, felizmente, sozinho em sua sala, com seu sexo ainda pulsando, coração aos pulos e o cheiro dela dentro das narinas sem que ele conseguisse explicar a si mesmo como poderia estar impregnado dela sem que ela estivesse ali.

Esfregou os olhos e segurou forte a cabeça entre as mãos tentando se sentir real. Queria devolver a si mesmo um tanto de sanidade. Coisa que tinha de convir que lhe faltava já há alguns dias, para ser mais preciso, desde que havia sido invadido por “ela” sonho à dentro. Não havia uma só noite que ela não o assaltasse e que ele fosse maltratado pela constância e pela inconstância de viver o irreal. Ou seria real de alguma maneira? Não queria admitir para si que pensava nessa hipótese. Seria insanidade demais para ser ignorada por sua racionalidade. Mas fato é que repentina e sorrateira entrava na sua cabeça de forma tão palpável que conseguia sentir a maciez de suas carnes entre seus dedos mesmo depois de acordar. Mal conseguia piscar depois de despertar sem que o gosto dela não lhe voltasse à boca e isso lhe exasperava. “Como?!”

Tentava em vão se convencer que se tratava apenas de sonhos fantasiosos fortalecidos pelo forçoso celibato temporário imposto pelos afazeres profissionais. E na busca lógica e coerente de um motivo, ainda se questionava em o porquê, sua mente, obviamente queixosa de atividade real, havia escolhido exatamente “ela” para esse jogo inconsciente que lhe supria os desejos, mesmo que mentais. “Por que ela?!”

Afrouxou um pouco mais do nó da gravata e se deixou cair absorto em deduções vãs sobre os motivos ocultos disso e daquilo de forma controlada e conformada, enquanto o coração voltava a bater no compasso normal, e o volume entre suas calças sossegava queixosamente aos poucos.
As olheiras eram fartas sobre os olhos. Vivia essa tortura noturna diária há quase um mês. Perdeu peso. Era bem aparente. Culpava o excesso de trabalho por essa loucura. Na maioria das noites relutava em dormir. Inventava tarefas a mais para não adormecer. Temia pela sensação enlouquecedora de desejar um sonho. De passar o dia inteiro revivendo os detalhes vívidos de alguém que sequer existia. De surpreender a si mesmo elaborando os beijos que daria mais tarde quando... Dormisse!

Tinha certeza que iria acabar por enlouquecer ou se render a alguma prescrição de opióides pesados. Era o que pensava enquanto arrastava-se até a cama chutando sapatos e abandonando o terno no chão antes de se deixar abater pelo sono novamente, temendo e ao mesmo tempo desejando que ela novamente o visitasse. Adormeceu de dedos crispados no lençol como se quisesse arrancá-la de sua mente e trazê-la para sua cama,  segurando forte para nunca mais a deixar partir desse mundo real.


***     ***      ***


Estava tão frio lá fora que seus lábios tremiam azulados quando terminou de vestir aquele vestido vermelho, com meias de renda que lhe marcavam as coxas. O vento gelado lambia o corte profundo do seu vestido nas costas lhe causando um arrepiar dolorido. Mas não se importava. Havia remontado cada detalhe necessário para sua noite. Meteu-se ligeira embaixo do seu grosso edredom, sem esquecer-se de deixar a janela ligeiramente aberta para que o barulho da chuva lhe embalasse rumo ao sonhos. Aqueles sonhos. Os seus. E tinha certeza que em algum lugar no mundo eram os dele. Nutria não só sensações, mas acumulava cada noite a certeza absurda dessa existência em dois planos distintos.

Havia cultivado o recente hábito de abraçar um travesseiro para dormir se deixando escorregar em um aconchego confortável criado pelo seu enorme cobertor. Tudo na ordem exata em que estava na primeira noite na qual ele veio povoar sua cabeça.

  Estava realmente exausta, mas absurdamente ansiosa. Geralmente acordava muito mais cansada do que quando ia dormir, mas era certamente a melhor sensação que experimentava já há mais de um mês. O resto das horas eram apenas um amontoado de minutos redundantes, tarefas sem importância em branco e preto.

Já era certo que encontraria exatamente o que desejava se seguisse todo o padrão daquela preparação diária antes de dormir. Vestido, meias, janela entreaberta. Revisitava cada detalhe no quarto e quando satisfeita da exatidão fechava os olhos.  Suas mãos apertaram ainda mais o travesseiro quando se sentiu escorregar dentro do torpor e adormeceu sorrindo.

Logo ele veio. Abriu a porta calmamente e lhe olhou dentro dos olhos. Sem lhe dirigir uma única palavra deus três passos lentos até seu encontro. Seus cabelos estavam em total desordem. O nó da gravata parcialmente defeito. O som oco dos seus passos marcou o compasso da respiração dela. Não conseguia tirar seus olhos dos dele, muito menos fugir dos lábios que tanto deseja. Quando finalmente parou em sua frente, tremeu inteira, lhe fugindo as forças das pernas quando se deixou envolver por seus braços. Ele parecia impaciente desta vez quando lhe puxou grosseiramente para junto do corpo dele, consumido por um desejo que era comum igualmente a ela. Via as linhas de tristeza marcadas em seu rosto, mas mesmo assim, deixou que ele explorasse sua boca pela língua doce dele, pois esse era o sinal. O símbolo da conexão nesse encontro, quando ambos sentiam a realidade dentro do sonho. Mas foi só quando ele deslizou a mão por entre a suas pernas que deixou escapar um gemido abafado. Ela precisava cuidar dele, sabia disso. Empurrou-o até o sofá que estava do lado direito naquele ambiente vazio e nebuloso. Ele apenas aceitou seus comandos, rendido de excitação e obediente ao desejo. Levantou o vestido sentando-se sobre suas pernas, frente a frente com os olhos mais profundos que já viu. Beijava seu pescoço e suas orelhas, mordiscando lentamente, torturando-o de desejo, sentia fisicamente seu respirar no seu pescoço e isso lhe dispersava o pensamento, já que sabia, conscientemente, que estava sonhando.

Seu corpo e o dele já conheciam os caminhos certos um do outro, mesmo que apenas nesse terreno inconcreto dos sonhos. Enquanto ela se dedicava a beijá-lo inteiro, como se tentasse curar as feridas de ter de partir rumo ao real assim que aquele momento  surreal acabasse, ele se consumia na vã tentativa de controlar seu desejo, o que obviamente, noite após noite ele fracassava. Seu sexo ereto e quase incontido roçava pela calça eriçando-a cada vez mais. Caminho sem volta da sensatez. Ele a tocava de uma maneira particular. Só dele. Ela imaginava-se como a um violão em seu colo, sendo dedilhada em uma melodia que apenas eles dois poderiam tocar. E essa ilusão a fazia inclinar-se e moldar-se ao corpo dele como tal.

Essa música em particular ele sabia tocar. Perdido nas notas do corpo dela apertava-lhe o quadril e lhe machucava a boca de avidez, de cansaço e consumição. “Como querer o invisível?”

Deixou que ela abrisse o cinto e o zíper e lhe guiasse. Ainda ensaiou um ‘não’ que nem sequer saiu de sua boca. Ofegava vários ‘sim’. Transpirava vários ‘sim’. Mas foi quando ela lhe agarrou por dentro da calça que ele desistiu de se conter.  Sussurrava no ouvido dela repetidamente como se fosse o refrão de sua música: "O que queres de mi?! O que queres de mi, hã?!" E deslizava para dentro dela gemendo baixinho, mordendo-lhe a orelha e seu brinco, lambendo cada centímetro do seu pescoço e ela o dele. Ela nutria especial dedicação à boca de lábios volumosos e vermelhos, sempre macios e úmidos, que a faziam se perder em desejo, os olhando e beijando detidamente enquanto cavalgava de forma ritmada sobre ele. Gostava de vê-lo revirar os olhos de prazer incontido e indefeso, e ele nesse transe insano de sensações termina por lhe desferir uma mordida forte nos lábios e tirar-lhe um pouco de sangue, puxa-lhe os cabelos com os dedos trançados em sua nuca enquanto aumenta o ritmo dos dois. E ela toca a música que ele quer ouvir. Ela ofega no ritmo que ele quer escutar. Até seus pequenos gemidos são o tom perfeito. E ele a desafia com os olhos. Ele sabe que ao gozar o mundo dos sonhos se acabará, e que ela irá se desfazer, retornando ambos ao mundo real, onde ela não o conhece nem sabe onde ele está, e que ele não pode lhe buscar e nem seu nome sabe. Ele sussurra em seu ouvido "no se vaya, cariño mio..." Mas não conseguem mais segurar e adiar o momento que o prazer se sobrepõe ao desejo de continuarem imersos no ambiente desse sonho que lhe permitem estar juntos. E ela se sente invadir pelo gozo dele que lhe faz gozar logo em seguida. Abraça-se ao corpo dele e os dois se deixam tragar pela tristeza da separação e a incerteza de que se encontrarão novamente.


Logo ela acorda. Banhada de suor, com o lábio inferior machucado, e molhada de prazer. Suas mãos instintivamente abraçam mais forte o travesseiro que morde com força para se sentir acordada e ao mesmo tempo para expressar a frustração por ter despertado e estar sem ele. Não sabe quanto tempo mais saberá conviver com a sensação do seu corpo e de sua pele ainda vivas e presentes como se ele tivesse acabado de levantar e sair de sua cama. Mesmo assim sorri pensando que o dia é só um conjunto de horas como degraus que lhe levarão até ele essa noite. Alguns passos. Mil passos que sejam.


quinta-feira, agosto 13, 2015

One Night


Recentemente fui desafiada a escrever algo diferente... "Sem limites". Tomei o desafio pela mão e me debrucei sobre esse texto. Não vou dizer que foi fácil, pois realmente não foi! Mas de certo foi interessante ultrapassar as barreiras do usual. Tentei formatar uma personagem anuviada de pensamentos, mas ao mesmo tempo despida de limites. Optei pelo feminino, mas acho que da próxima vou me aventurar na primeira pessoa no masculino. E nota válida aos leitores fortuitos: Não é um texto pessoal! Simples assim!


                     As chaves ficaram penduradas na porta sem completar a volta na fechadura. Desmazelo compatível com a sua urgência em arrancar minha blusa enquanto lambe meu ombro. Vejo e deixo estar assim, nessa meia volta em si mesmo, completando em torno dele o giro que não fez a chave.

As luzes ainda estão apagadas, nos permitindo uma cegueira premeditada. Minhas pernas ainda guardam as marcas dos esbarrões com a mesinha do canto, e relembrando o mapa do nosso quarto, defendo-me instintivamente, driblando a cadeira ao mesmo tempo em que fujo de suas mãos ávidas no meio das minhas coxas, só para vê-lo suplicar ajoelhado. 

O vaso com as flores de ontem ainda balança recuperando-se do desalinho das minhas roupas jogadas sobre ele, e a ameaça suicida das minhas margaridas na borda da cabeceira prende-me a respiração um segundo a mais, apenas até sentir a sua língua insolente explorando meus seios, desfazendo a minha minguada convicção em lhe resistir um pouco mais.

Com os dedos leves leio o mapa do corpo dele, desenhando as linhas de seu peito para senti-lo arrepiar, sussurrar que me quer mais do que tudo, de olhos revirados, suado e pulsante, até a sua pouca paciência o arrebatar. E se me deixo cair esmaecendo em suas mãos é pela certeza prazerosa de que me buscará onde quer que eu esteja, dentro de meu torpor ou da minha avidez, e abrirá meu corpo e minha alma nesse universo paralelo.

Os desenhos dos seus dedos nos meus quadris ficam impressos como se por desejo inconsciente de me marcar como sua.  Segura meus cabelos na nuca e sussurra absurdos para me ver desatar os nós da minha sanidade. E os desato um a um quando seguro forte seu sexo, provando não só de suas palavras, mas seu doce pulsar em minha boca.

Nossos lençóis sempre cúmplices das incoerências do desejo e do desassossego de seu olhar, até parecem que nos absolvem de todos os delitos. 

Que a Gentileza me perdoe por arranhar suas costas enquanto sorri anestesiado pelo desejo, que a Delicadeza não me condene por morder seus lábios até escutá-lo gemer, e que a Civilidade não me desaprove por lhe permitir me devorar por inteira, porque delas me despiria tão facilmente quanto o fiz dos sapatos que estavam em meus pés. 

 Como se fossem uma porta para seus pensamentos, dentro dos seus olhos vejo somente a mim mesma, e essa imagem me olha de volta sem que eu consiga realmente me reconhecer. A um centímetro da tua boca, só quero que você respire o mesmo ar que acabo de extrair do meu peito, para sentir em você o ritmo da vida de um instante e escutar o bater do seu coração como se fosse música para ser a sua dançarina, pois bailo de cabelos revoltos essa dança das suas fantasias, permitindo que penetre com força meu corpo.

Segura forte meu rosto para que não fuja sorrateira em meus próprios mistérios enquanto desliza suave pelos caminhos clandestinos do meu prazer, me alimentando com seu deslumbramento cheio de gemidos e silêncios.

Cumprindo as ameaças, o vaso com as margaridas finalmente cai no chão com estardalhaço no mesmo segundo no qual a chave termina por si só seu giro na fechadura com um estalido determinado, e nossos corpos imersos, rendidos e redimidos se desabotoam em um último movimento, exauridos de todo o absurdo do amor. 


Imagem: https://www.etsy.com/pt/listing/201601400/vkus-noi?ref=shop_home_active_1
Ao som de: https://www.youtube.com/watch?v=DmDJcyQIy0s  (Jorge Drexler - Deseo )

quinta-feira, julho 16, 2015

My Invention of Love

I swelled you like a little pill,

And turned you into a giant.

I know you didn’t ask me to,

So rip me off from the inside out,

´Cause you can’t stay

And set fire on my every single thought

That’s why I say…

You can’t stay…

And I might find a way

To take you out!

But if you close your eyes, who am I to you?

Am I your sins or your best dreams?

Could you just be the one who holds me?

Can it be that simple?


Ao som de: https://www.youtube.com/watch?v=49-wNRvJwjk
Imagem: http://www.deviantart.com/art/Broken-77224829 (Pintura feita com um lápis quebrado...)

terça-feira, abril 08, 2014

Drip... Drip... Drip...



    Tento pensar por onde começar para refazer o mesmo caminho, e não sei onde por os pés. É como andar olhando por um retrovisor e depois engatar a marcha ré. Sinto que cada vestígio se esvai sem que eu possa reter. E tento voltar, catar cada migalha de você que ainda tenho em mim para ficar em paz com o que não foi.

 
Não creio em lembranças nem em suspiros. Assim como nunca acreditei em viver esse tempo atrasado e demorado, que se afoga premeditadamente em ponteiros arrastados, viciados em ouvir tua voz.

E passo os minutos olhando o teto e aquela goteira velha que pinga no balde azul que tento tão esmeradamente posicionar no chão, mirando suas recordações infiltradas, aquelas as quais nego e que se repetem ritmadamente.

Sei que não seria eu que deveria falar de amor, muito menos de destino, se tirei das mãos do acaso o caso de nós dois quanto te disse e quando calei. Não deveria acreditar  em senões nem em promessas de copo de vinho.

Estou atado na minha teimosia,  preso na insistência do fracasso de um quase amor só por não saber ser só, só por não saber ser eu sem você. Só sei dizer que vai chover e que aquela goteira ainda vai continuar a pingar. Sei dizer onde estão teus sapatos e as chaves do carro, mas não onde escondeu essa felicidade toda que agora me assalta e me assombra.

Já quis pintar as paredes da sala, e quis dizer adeus. Mas lembro do teu dia azul e do teu cheiro amargo e só consigo voltar. Só posso rodar e rodar e parar no mesmo ponto onde pedi para não ir, e pedi para não dizer. E depois para você vir. Mas aporta não se abriu, e só aquele vento sul entrou pela janela, sacodiu a toalha da mesa  e se foi, carregando uma gota para fora do balde e um pensamento cheio de você para fora da minha boca.


quarta-feira, outubro 30, 2013

Coisas Miúdas




Sei... Realmente faz bastante tempo.
Mas tempo necessário. Estava cuidando do essencial! Vida!

Esse texto estava dormindo na gaveta, junto com um monte de coisas miúdas que não sabia onde colocar...

Não sei mais o que fazer com estas tuas coisas miúdas enchendo meus bolsos.
Brincos, batom, palavras rasgadas, amor pesado, paixão leve e conta de luz.
Tiro e reviro. Puxo e logo em seguida mais me aparece...
Chave "de-não-sei-qual-porta", promessas macias, teu perfume e cartão de visitas.
Obstinado continuo inventariando miudezas...
Papéis amarrotados, beijo terno e tampa da caneta.
Bolsos cheios, dúvidas multiplicadas e continuo sem saber...
Fotografia borrada, pétala de flor e bom dia.
O que faço das tuas coisas miúdas? O que faço deste meu desejo de me afogar nas promessas dos teus olhos pequenos. Quanto mais tento entender esse lógica mais perdido fico em “senão” e justificativas torcidas só para lhe agradar. Preso neste lado de dentro dos teus pensamentos, dos teus abraços infinitos, ainda assim não sei o que faço das tuas coisas miúdas.
Não sei se guardo ou se me enrosco nas fitas que usa nos cabelos, pelo simples fato de adorar deslizar o dedo indicador por sua nuca acompanhando a linha desenhada pelos finos pelinhos que lhe descem pelas costas...
Fico neste roer de unhas  esperando que me caia no colo como dádiva a resposta do que fazer destas tuas palavras absurdas que me fazem consumir em desejo. Dedico músicas e sorrisos nas poucas horas lúcidas e ponho-me de pé e distante na loucura. Quero mais é ficar de mãos cheias de teus versos melancólicos e das rendas das tuas saias!
E se ainda tenho fé em algo, rogo: “Valei-me Senhor dos desesperados! Porque não sei mais o que fazer destas coisas miúdas e desta paixão imensa!"
Eu quero abrir a porta certa, sussurrar todas as promessas que quiser ouvir. 
Quero é que me dedique todas as palavras rasgadas,  e que me cubra com beijos de batom.
Quero que seja meu o amor pesado e a minha paixão leve. Quero mais é desenhar seu corpo, despir-lhe de brincos e de "bom dia".
Eu quero é estar na fotografia junto com seu sorriso. Quero me impregnar do seu perfume e deixar de ser eu parte das tuas coisas miúdas.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

O Palco

O texto rondava fazia um tempinho, mas agora ai está! 
Creio que vai demorar um tantinho para uma próxima postagem por dois lindos motivos superiores que estão para chegar, mas hora ou outra estarei por aqui novamente...





De alguns fatos não há como se esconder, por mais vergonhosos que sejam. Eu sempre quis saber cantar. Sem muitas justificativas, ou longos discursos sobre expressão artística ou da alma. O máximo que consegui foi a conveniência de uma mudez infame.



Para aumentar a humilhação, com o tempo, adquiri técnicas para ocultar-me no acanhamento e apropriava-me da voz alheia aprisionando-a na minha boca vazia enquanto a melodia ajudava o embuste mudo do meu canto inexistente. Dublagem de voz e sentimentos. Nada mais apropriado!



Acho que por isso odeio tanto você, despindo-me da minha farsa perfeita, me fez imaginar palcos, e até imaginei cantar no seu ouvido enquanto você ouvia e sorria. Imaginei que gostaria de ver-me envolta em compassos, que amaria tudo o que escorreria dos meus refrãos, não como verdades ou juras, mas como a imagem das possibilidades que nunca realizaríamos. Como eu o odeio!



Não sei se para me afrontar, você sim cantava e eu gostava de ouvir. E eu ficava intrigada tentando encontrar explicação para perfeição. Os sons não saiam apenas dos lábios, mas também daqueles olhos disfarçados de boca que confessavam, mas nunca me diziam. Você cantava e eu emudecia.  Como parte da crueldade, amava vê-lo cantar, me tornando a mais miserável das criaturas.



E eu, apenas me afogava em palavras que nunca ganhariam pernas enquanto ele todo prazeres! Boca, peito, palavras e juras! Gostaria de escrever as rimas de uma paixão certa e concreta, cheias de detalhes e toques, cheios desse você que tanto detesto!



E muda deveria ter me mantido. Mas ao invés de me recolher no canto escuro da minha raiva de vê-lo desenhando em acordes, agarro-me ao microfone na certeza de que terei a voz e cantarei. 



Mesmo assim, só me resta o silêncio!

---x---x---x

Já não se escrevem mais cartas como antes. Tão pouco canções que brotem da caneta imaginária de um poeta sofrido.  Mas ela guarda letras embaixo do colchão. Esconde cartas amarrotadas que nunca serão enviadas. Criatura de outro tempo esta! Não pertence ao passado e assombra o presente. E se assim pode ser dito, só se constrói inteira em um futuro que imagina em diversos finais, montados e remontados, se deliciando com as possibilidades.



O calor dos holofotes faziam suar a testa. Minúsculas gotículas brotando pela pele. Disfarçadamente limpava o suor com as costas da mão direita enquanto sorria angustiada, procurando a primeira saída, a fuga perfeita. Mas encurralada que estava em seu próprio orgulho, balançava-se sobre os próprios pés, dentro de seus saltos vermelhos de camurça. 



Vestia-se de sua personagem indefectível de si mesma e agarrava o microfone, se deixando penetrar pela dor de um sentimento anunciado pelo primeiro acorde que ressoava. Quem assistia este segundo entre aqueles olhos fechados e a primeira nota, prendia a respiração em suspense exultante, em espera atenta, quase em um estado de paixão. 



E só assim, devorado, as mãos inquietas, torcendo os dedos em infindável anseio pelo segundo seguinte, tirano e consumista insaciável,  porque o presente nunca basta em si. Odiava a ousadia desafiadora, entregue a própria voz.



Embalada em notas e sonhos de outro tempo, cobre-me com poesia e desejos. Fecha os olhos enquanto canta, mas se sente incapaz de o fazer enquanto beija. Engulo o ódio que me dedica, e o amor que me recusa, junto com as palavras e notas.

segunda-feira, abril 30, 2012

Cárcere

Ela andava arrastando o meu olhar.

Colocava a mão fechada na curva do quadril por puro deboche da minha cativa prisão que balançava junto à cadência de seu andar de nuvens, enquanto eu tropeçava em desejos maltratados.

Prisioneiro conformado, agradeceria ajoelhado se fosse preciso o fato de estar algemado aos olhares descrentes da carcereira faceira que havia arrumado na esquina da Rua São José, que me negava o pão e a água, mas não o perfume de seus cabelos, pois este a graça era quem concedia!

A mim dedicava a ilusão de me ignorar por completo, mas enchia-me o peito de alegria ver que espiava hora e vez se lá me mantinha obediente, mirando sem fim o movimento da sua cintura. A certeza de que lhe sou devoto rega sua vaidade, disto nunca tive dúvidas, todas gostam. E negam... (É claro!).

Chegava sempre antes que ela entrasse para o trabalho. Ria-se alto como se para anunciar que agora eu poderia respirar. E se não durmo pela noite é culpa destes versos sem rumo que ela cantarola durante o dia inteiro e que povoa meus pensamentos pela noite.

Atrás do balcão daquele bar ordena como a uma orquestra afinada, xícaras e açucareiros, pratos e talheres. Sento-me, como sempre, na mesa do canto esquerdo, com visão privilegiada para o decote de sua blusa estampada, que se insinua abusado quando ela manuseia os botões gastos do caixa emperrado.

As saias eram uma atração à parte. Sempre longas e marcadas na cintura. Sua favorita era a azul. Tecido já meio puído, de um algodão fino que a luz do sol que entrava pela porta denunciava as coxas roliças por dentro delas.

Nem vulcões na Indonésia, nem aurora boreal na Antártida, o melhor espetáculo da terra poderia acontecer a qualquer minuto na minha frente, bastava que ela passasse languida entre as mesas e a sua saia, que até parece que tinha vontade própria, volteava displicente e me tocava a perna. Por esse arrepio pagaria com a alma!

Passava boa parte do dia fitando-a por trás das folhas do meu jornal de ontem. Ornada em avental e toda revestida dessa ideia malograda de mulher casada e descente só para me atormentar. Honestidade a toda prova. Adição de mazelas ao meu rosário de malfeitos. Sou homem de poucas convicções, mas uma delas é de que o simples não poderia ser pecado. Porque a beleza não merece contraditório.

Dona dos meus suspiros, ela torcia a boca de leve quando alguém lhe lembrava da minha existência silenciosa naquele mesmo canto todos os dias. Relhava com todos e pediam que fossem procurar o que fazer, pois ela tinha e muito. Dava as costas e se ria solitária e furtiva do meu desconcerto.

Servia-me o café e depois enxugava as mãos no avental batendo duas a três vezes. Não fazia perguntas, não me olhava dentro dos olhos. Mas deixava de propósito que uma gota de suor caído de sua nuca escorregasse entre os seios, enquanto eu inspecionava seus gestos e lhe retribuía com meio sorriso sem graça abandonado nessas olheiras de consumição, mal escondendo a ereção infantilmente disfarçada pelas minhas pernas cruzadas e o jornal amassado.

Ela faz não notar por travessura medida, mas domina todos os meus sentidos pelos controles remotos dos seus quadris e durante o dia vai apertando meus botões com aqueles seus olhos pequenos. Mas não ligo que ela me maltrate. Não ligo com quilos que já perdi apenas para lhe escutar respirar, pois estou certo que sou eu em quem ela pensa quando banha-se de água de perfume ao acordar, e que são para mim os versos de amor que cantarola o dia inteiro. Não me importa que ela me inunde de veleidade, contanto que me guarde um lugar em seu travesseiro, no escuro e secreto recanto de seus prazeres serei eu que lhe despirei as saias e lhe rasgarei a blusa, que lhe causarei sorrisos escorridos e lhe arrancarei gemidos.

No fim do dia ela admira-se no pequeno espelho de moldura laranja ao lado da porta da cozinha e tenta recompor os cabelos presos no topo da cabeça. Por um breve momento os solta por completo para logo em seguida reorganiza-los apressadamente no mesmo penteado. Nesse breve intervalo, entre soltá-los e prende-los novamente, sou homem refeito. Imagino-me levantando da cadeira na mesa do canto esquerdo, cruzando as demais mesas em reboliço, e segurando forte aquelas crinas negras entre os dedos, respirando profundamente o cheiro doce do seu suor e beijando seus lábios de espanto.

Antes de deixar-me largado envolto nos meus sonhos ela dá um adeus gentil para todos e me lança um olhar triste de soslaio que só eu percebo e agarro como se me lançasse uma rosa teatral. Depois segue descendo a rua e arrastando minha vida.

Imagem:http://www.bancodearte.net/dias-ramos/lavadeiras/
Ao som de: Jorge Drexler (Un Lugar en Tu Almohada) - http://www.youtube.com/watch?v=UzwraaGDeXY&feature=fvst

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Carbono


Sente falta do tempo onde tinha que colocar papel carbono na máquina para copiar letra por letra todas as palavras. Gostava principalmente da força que colocava nas teclas, cada batida e o som abafado das folhas.

Um tanto questionável esse seu gosto pela dificuldade da cópia, quando todos os seus sentidos são forjados, imitados por adequação. Nunca encontrou dentro de si o que pudesse chamar de original ou selvagem. Sente falta de instintos.

A maior parte dos motivos são pouco lógicos, e na maioria egoístas, e nem por isso menos legítimos. Conhece pessoas que adotam alguma razão para justificar escolhas muito mais absurdas, e nem por isso mais ou menos condenáveis.

Então sorteia alguma razão da urna dos motivos e a ela segura forte entre as mãos e segue. Tergiversando no meio da festa, barulho e som alto, adotando a melhor das performances das simpátias copiadas e sente-se beijada pelo beijo alheio.  O dele. Sempre o dele.

“Boa noite”, beijos e cumprimentos. Corpos balançando no ritmo da música que gira. Olhares de cumplicidade dirigidos aos olhos que o tocam no outro canto da sala, e tocam a ela na mesma medida. Uma sintonia forjada, uma história inventada para substituir a que não viveram, para apagar, para regar a memória de um esquecimento, para isso e para além, coloca-se distante, e ao mesmo tempo próxima dessa imitação. Do arremedo da constância.  

É fácil distinguir aquilo que é copiado, e ela o sabe bem. A consciência trinca seu espelho. Irritante essa imprecisão, esse vazio entre as vírgulas. Ainda mais angustiante por não pertencer ao laço dos sorrisos, que é como um tear invisível, criando fios um a um, tecendo um laço entre uma ponta e outra, de quem dá para quem recebe. Retribui na mesma moeda de um gesto sem explicação, herança de um antepassado que não traduzia em palavras o que sentia e transmutava em músculos e dentes o que não sabia dizer. Ele é todo músculos e dentes.

Ele abraça o primeiro corpo que lhe aparece, e o mesmo ela o faz. Enreda os dedos por entre os cabelos de uma moça embrulhada em ilusão, e ela o repete no outro canto, com outra alma passageira e ávido por uma gota de desejo qualquer. Assim seguem uma coreografia espelhada de gestos, prazeres e desgostos.

Suas cópias são melhores que as dele, e ela não sabe se deve se orgulhar disso, mas de alguma forma regozija-se, qualquer um pode perceber pelo olhar furtivo que ela lança ao lado oposto da sala. Talvez por acreditar muito mais, talvez por usar da mesma força que lembra que empregava em cada tecla das letras da sua antiga máquina de escrever. Forjando as melhores palavras e agora os melhores sentidos.

 Mas ele ainda assim sorri parado, atado em outros braços, naquele mesmo canto de sala, deixando a mostra tudo o que pretende inexistente, desafiando a ordem, expondo os recantos secretos onde esconde a existência dela dentro dele.

Por vezes se surpreende no mesmo devaneio de sempre, se perguntando se essa sombra, esse papel copiado, será tudo que terá. Mas continua esperando pela simples falta de ponto nas frases. Lançando migalhas aos pombos gordos na frente do seu prédio. É o mesmo que faz com ela quando ele usa desses infinitivos.

Ela é a cópia, o espelho. É a cria do desejo, é o beijo que nunca foi dado. Marca indelével da própria criação.

E assim estão unidos, o original forjado e a cópia da invenção. Os dois são fantoches, imitadores do amor alheio, esse será sempre o papel que terão um em frente ao outro. Fazendo da vida uma folha de carbono, copiando atos e sentimentos, tornando da vida própria a alheia, escolhendo lados, mas sempre inversos e ausentes.

Tarde ao som de: Someone Like You - Adele/ Take it All - Adele

sexta-feira, janeiro 20, 2012

As Portas

Esse texto já estava "rondando" minha cabeça há muito tempo, fico feliz de hoje ele finalmente ter parado de me "assombrar" e aparecido por completo!

Escutava o barulho do ponteiro raspando com dificuldade entre a passagem de um minuto para o outro. O barulho oco dentro do apartamento ainda parecia muito mais razoável do que o ronco do seu estômago reclamando atenção, já que tinha negligenciado à hora do seu café matinal apenas para ouvir o tilintar da xícara, e o girar lento da colher dissolvendo o açúcar.

Adivinha um meio sorriso de satisfação que seria seguido de um olhar pela janela avaliando o tempo, e hoje estava nublado, certamente ele levaria consigo o guarda-chuvas, pensou. Logo depois ele olharia no espelho e passaria os dedos pelos cabelos pegando as chaves ruidosamente, neste exato momento, e por fim abre a porta que reclama o abandono de seu dono rangendo, e a fecha com uma força desnecessária, para depois sair vagarosamente pelo corredor, montado nos mesmos passos firmes de todos os dias. Fim do primeiro ato. Respira fundo.

Só agora atende ao apelo convulso do seu estômago e serve seu café morno, e vai bebê-lo próximo da janela, oculta pelo voal branco, comodamente fechado, enquanto assiste ele distanciando-se na rua, e já espera seu último olhar para cima, como se tivesse acabado de lembrar que se esqueceu de algo no apartamento e que restará esquecido, quem sabe lembrará amanhã. Fim do segundo ato.

Essa é sua dança, uma coreografia que já pintou tantas vezes na sua cabeça que por vezes se pega imitando os gestos que imagina dele, e girando a chave no mesmo momento que ele o faz, mas jamais ousaria abrir a porta.

Acredita no absurdo, que já usam uma comunicação sem palavras. Sua porta e a porta dele, bem em frente da sua, que se fitam sem remédio e sem desculpas, pela pura falta de sorte de não poderem fugir desse destino de assim estarem. Abre, bate, fecha, trava. Seguido. Sempre na mesma ordem. Não confia nas fechaduras, mas nesse ritmo que segue para fazer essa seqüência de ações que sua mente classificou como essenciais. É quase uma música. Uma orquestra inteira quiçá. Imagina-se igualmente dançando. Treinando sem cessar rodopios seguidos. Sente-se leve com este pensamento e até sorri.

Imagina que lamentável destino que tem a sua porta branca, que agora finalmente é aberta para que a sua dona a abandone para suas obrigações do dia. Repara no número que precisa de conserto. Um 6 meio torto que parece tão triste e solitário quanto ela. É sua vez de olhar uma última vez, mas para a porta dele de cor escura, com aquele 9 altivamente irritando-a por ser guardião intransponível de tudo que ela mais deseja.

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Espera o despertador tocar, mas já está acordado a tanto tempo que tenta recordar se chegou a dormir algum minuto daquela noite. Mas sente-se aliviado de finalmente não estar atado ao compromisso de sonhos rebeldes, nos quais se vê em uma repetição sem fim dos mesmos gestos.

Entra no chuveiro com todos os vestígios desses pensamentos e espera que a água o redima para o resto do dia. Prefere-a gelada e imagina-se um faquir por sentir como se milhares de espadas o transpassassem o corpo inteiro. É a dor que o devolve para a sensação de algo que ele costuma chamar de realidade.

Desenvolveu o hábito de revisar mentalmente a agenda do dia enquanto está no banho. Já há algum tempo sente-se tão ansioso por esse início de manhã, sem saber exatamente por que, que já se percebeu velejando por imagens e lembranças que em nada se relacionam com seus relatórios e prazos. Dia desses quase aceitou o conselho de um amigo que receitou alguns patoás feitos por um ubandista no Flamengo. Crê-se assombrado. Mas não consegue evitar a lembrança da imagem dela diante dele. Os cabelos loiros soltos e caídos sobre os ombros.

E perde-se nesses pensamentos tolos de o que ela deverá estar fazendo neste momento, enquanto displicentemente fica a girar o açúcar no café recém passado. Pensa que ela deve estar a espreguiçar-se languidamente sobre a cama, ou a escovar os cabelos lentamente ou quem sabe saindo do chuveiro e imagina ainda que o frio da manhã a deixa arrepiada. Sacode a cabeça energicamente como se tentasse acordar mais uma vez.

Recolhe a pasta, documentos e chaves. Para no espelho e repara nas olheiras pesadas e cada vez mais profundas sobre seus olhos. E se permite pensar que ao bater a porta ao sair, ao menos assim, estaria chegando de alguma maneira também nos pensamentos dela, nem que fosse incomodando-a na leveza da manhã que ele imagina. Cada dia bate mais forte a porta sem se perceber disto. E fecha os olhos imaginando-a franzir a testa com o barulho. E essa imagem o satisfaz. Espia uma última vez a porta do apartamento 6 e pensa em um dia bater. Só nunca consegue imaginar o que seria depois. O que diria. Nunca acha palavras, nunca encontra coragem.

Segue perdendo-se no corredor e depois pelas escadas apressadamente e seu coração bate tão forte, e prefere pensar que aquele esforço matinal de descer dois lances não está lhe fazendo muito bem, precisa fazer exames médicos, quiçá mentais! Finalmente alcança a calçada. Respira fundo e vira em direção à janela dela. E lá está. Bebericando café como todos os dias, linda visão escondida atrás daquele voal. Imagina se um dia acenará para ele, e imagina que guarda um sorriso para ele todas as manhãs. Não hoje. Quem sabe amanhã...

E termina por desaparecer.

terça-feira, novembro 22, 2011

A Cena

Depois de muito, muito (MUITO) tempo depois, eis que retorna ao Brincos o projeto cruzado de escrita entre o meu amigo Hecton e eu. Dessa vez assistimos a mesma cena e dela partimos para o desconhecido! 

Entre o concreto e o cinza, meu pensamento se dissipa entre um tom e outro. Queria poder, bem de longe, imaginar, ou melhor, entender o que você está pensando agora.

Ainda não sabia para onde deveria ir. E até estranhava esse pensamento do “dever” ir, essa obrigatoriedade estranha depois de tudo que vivi nos últimos dias. Os caminhos são iguais, as pessoas são iguais. E imaginava encontros ansiosos das mais variadas maneiras entre todos os personagens que me cercavam, mas eu não cabia em nenhuma das cenas, não cabia em nenhum dos abraços. Não pertencia nem sequer a mim mesma.
Mesmo assim caminhava envolta nesses pensamentos que me arremessavam do passado diretamente para um futuro cinza, sem parada que justificasse esse presente, e por isso pisava com toda a força dos meus pés nesse caminho sem rumo, como se para sentir minha existência pelo próprio peso, sentindo o ressoar de meus passos dentro do meu peito aberto, escancarado. Pegadas imaginárias sobre o concreto, era o que precisava seguir.
A bolsa começa a pesar-me pendente na mão direita. Tentei lembrar o que estava levando dentro dela, e se algo mereceria realmente ser carregado. Um batom vermelho, papéis amassados, algum dinheiro e um cartão dele escrito com sua letra, apenas as iniciais. Não era preciso nada mais. Só aquelas iniciais.

Não que os sons das curvas sejam mais altos do o que ouvi de você há alguns dias. Mas por ter certeza que precisava correr de encontro a você para sentir isso. 

Enquanto passavam por mim os reflexos de imagens que não entendia, e até o ar me faltava, tentei te encontrar entre tantos rostos iguais e diferentes.
Penso ser um eco de meus desejos ou a loucura já habitando meus pensamentos. Minha lembrança insistente e incoerente que o quer de volta ali, ao meu lado, pondo passos no caminho, contando polegadas ou milhas, não importaria, apenas queria que realmente fosse ele. Mas escutei novamente chamarem-me. E é ele. Sorrindo sem sorriso. Parado e resgatando-me de dentro dos meus próprios olhos. 

Talvez o calor do seu corpo seja o bastante pra mim. Nada além do que esperava, enquanto o taxímetro girava... E a paixão se estagnava. E em um minuto, ao sentir o vermelho dos seus lábios, o tempo se rasgou entre o antes e depois desse segundo...

Aquele abraço que imaginei segundos antes de tantos encontros alheios agora era seu. E não sei bem porque me doeu tanto. Todos os ossos do corpo, cada músculo se entregou a uma dor extrema, mas mesmo sendo dor, era perfeito, e era tudo que gostaria de estar sentindo naquele momento. E ele beijou-me. Como se quisesse dizer tudo o que nunca poderia ser dito ou explicado. Depois me devolveu àquele lugar. Pôs-me em pé sobre as minhas pernas e pés, e ao redor voltei a ouvir o barulho da rua e a conversa inteligível das pessoas. Distanciava-se sem ter coragem de dizer adeus. Não seria necessário, pois eu sabia que ele estaria para sempre em mim.

E se tivesse durado mais... Mais que esses instantes não seria tão perfeito quanto o gosto dos seus lábios...