terça-feira, novembro 28, 2006

Viagem ao Mundo em 8 Segundos


Eu odeio os Egípcios. É fato.

E não dou a mínima para quem estiver se estrebuchado na cadeira achando minha afirmação um absurdo! Quero mais é que a civilização toda vá para... Não bastaram às notas baixas no colégio? Não... Eles têm que vir me assombrar o resto da vida? Meus motivos são simples e justos e tenho certeza que ninguém vai me olhar torto... Tinham que inventar os primórdios da cera quente ao misturar sândalo, argila e mel de abelha? Viu só? Civilização maléfica!

Mas mesmo odiando os Egípcios resolvi encarar todo o medo (provavelmente gerado pelas caras retorcidas das minhas amigas ao falarem do assunto...) e fui.

Assim, peito aberto.

Achando que essa era mais uma das lendas urbanas femininas do tipo “pentear o cabelo de cabeça para baixo cresce mais” ou “tamanho não é documento”, e “compre a calça jeans um número menor que depois cede”...

A placa era bastante elucidativa. “TEMOS DEPILAÇÃO COM CERA QUENTE”. Na foto umas pernas lindíssimas, torneadas e lisinhas, lisinhas. Pronto, quem não quer essa maravilha da evolução humana? Tá, tudo bem que não eram exatamente as pernas que eu queria depilar, mas não pode ser tão ruim, né?

Na sala de espera várias revistas sorridentes do mês passado discutindo as relações alheias, babando pela solteirice de Gianecchini (!), e um som ambiente agradabilíssimo. Tudo de propósito para desviar as atenções dos grunidos que vinham de dentro da famigerada sala...

As mulheres ao meu lado na sala de espera todas muito seguras de si, folheando sonoramente as pilhas de revistas, já as que saiam da portinha branquinha e inocente (uma inclusive com as pernas meio abertas e cara de dor...) me faziam começar a desconfiar que quebrar minha “virgindade de cera quente” havia sido uma má idéia.

Só faltava mais uma pessoa na minha frente e depois já era a minha vez. Hoje, e principalmente naquele dia, quis ser uma pessoa mais prática, decidida... Quis conseguir simplesmente pensar: “Vou embora” e levantar ao invés de viajar em elucubrações e terminar o pensamento lá no Taiti, que era exatamente onde estava minha cabeça quando a atendente disse: “Senhora? Sua vez...” Tremi. Vou negar não! Mas só na hora que a mulher de 1,80 e cara de “Helga – A enfermeira Húngara” apareceu toda vestida de branco estalando dos dedos das mãos dizendo: “Vem!”.

Fechou a porta de chave atrás de mim e riu. Isso é mau sinal. Qualquer pessoa mais prudente teria dado as costas e ido embora nesse momento. Mas não, veja só... Alguém ai aposta no que eu estava pensando??? No filme do Schwarzenegger. Nisso “Helga” me manda tirar a roupa... Assim, sem preliminares, sem beijinho no pescoço nem nada! (brincadeirinha gente!). E eu que devia ter fumado um maço de coentros obedeci! Ai pronto! A desgraça estava feita...

“Cantinho e axilas é ‘bem’ ?!”

Lá estava eu deitada na maca pensando que as Gregas em 2000 a.C arrancavam, os pêlos com as próprias mãos ou optavam por queimá-los com cinzas quentes sobre a pele, mas como a dor era muita (precisava nem dizer!), enchiam a cara antes para servir de anestesia. Cadê meu Whisky, pô?

“Vamos começar por onde?” Perguntei simpática, (mas com a voz tremida, como não???) e “Helga” meigamente disse: “Por onde dói mais ‘bem’, porque depois que eu der a primeira ‘puxada’ daí você não corre mais, porque pior não fica!”. Ninguém pode negar que a mulher tem muita psicologia, não é?

Não obstante, ela manda que eu levante a perna o mais alto que puder... Ou seja... Não vou nem descrever que os pontos visualizados por ‘Helga’, provavelmente, nem meu doce e amado (hoje eu digo! ) ginecologista jamais viu! Ô situação esdrúxula!

‘Helga’ vem em minha direção com o papelzinho na mão e grudou a cera com firmeza, enquanto eu tento fechar os olhos (De olhos fechados dói menos?).
Bem que eu podia ter batido o carro antes de chegar aqui, ou aparecido um imprevisto inadiável, lindo e maravilhoso... Bem o que o Rick Martin podia aparecer na porta e ‘Helga’ iria correr para os seus braços... Ou a musiquinha do Plantão do Jornal da Globo tocar e quando ela virasse perguntando “ Ai meu Deus! quem morreu?”Eu saltaria da maca em um Duplo Twist Carpado e fugiria dali. Ou bem que... E foi nessa hora que vi as Muralhas da China, e que passei pela Ilhas Fiji, a Torre Eiffel, os canais de Veneza, e que vi os corais submersos dos mares do Pacífico, além de ver as malditas Pirâmides do Egito (que no final são até simpáticas!).

E voltei ao meu corpo dolorido e arrependido, enquanto ‘Helga’ satisfeita exibia o papelzinho arrancado, juntamente com meus pêlos, minha dignidade e um restinho do juízo que me sobrava, e tal qual o Sansão da Dalila, provavelmente iria se esvair até o final daquela minha apresentação as ‘maravilhas’ da cera quente.

Pois é, eu odeio os Egípcios...

terça-feira, novembro 21, 2006

Agora, Sim!


Já casei e batizei (Não necessariamente nessa ordem...)

Viajei... Linda fotos, e pouco tempo para escrever (esperado, não é?).
Mas não estou esquecida nem do Brincos, nem das amigas... Assim que a inspiração for maior que a pilha de papéis aqui da minha mesa, estarei postando algo mais adequado aos propósitos deste Blog.
Ademais, reitero o convite de que minhas amigas voltem a esta casa que tanto as adora! Escrevam meninas!

Beijos!

quinta-feira, outubro 26, 2006

Vi Minha Vida passar Diante dos Meus Olhos na Cadeira da Cabeleireira...

Já ouvi muitos relatos de pessoas que experimentam momentos de intensa reflexão (e não sei por que diabos a maioria só faz isso quando está prestes a morrer, ai não tem mais jeito, né meu velho???).

Ontem, após um longo dia de trabalho, lá fui arrumar os cabelos no salão, já que no dia seguinte pela manhã eu iria finalmente casar civilmente.

Sentada escutando um o ronco do secador, lembrei da minha vida inteira até aqui. A minha vida passou diante dos meus olhos na cadeira da cabeleireira...

Lembrei da minha primeira boneca, da primeira queda de bicicleta (alisar o joelho anteriormente ralado é instintivo!), das noites que acordava meu irmão com medo de baratas virtuais... rsss... Tadinho!
Dos meus pais me levando para escola, de brincar no balanço, do meu medo de altura, do meu corte no dedo cortando limão, de todos os natais...
Lembrei de todos os amigos, das pessoas que me compreenderam e das que não me compreenderam...
Lembrei ainda dele... Muito.
E de todo nosso caminho até aqui. Lembrei do quanto cresci ao seu lado, de quanto fiquei triste de vê-lo entrar naquela porta no aeroporto e de como me prometi nunca mais deixar isso acontecer...
Bateu um saudosismo esquisito de tudo que passou e uma saudade desse futuro que está prestes à começar... Mas acho que só posso chamar de FELICIDADE esse meu sorriso estampado na cara enquanto vejo minha vida passar diante dos olhos e pensar na quantidade enorme de momentos que ainda vou colecionar ao seu lado dele de agora em diante.
Essa quase ‘ode’ ao amor no calor morno do secador de cabelos. Meu jeito de dizer meu amor...
Meu jeito...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Ladrão sim! Frouxo não!


"Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder" (Abraham Lincoln)
Eu sei que eu tinha prometido não falar mais do Lula... Mas o cara não deixa! E tal qual o Bira da novela páginas da vida “É mais forte do que eu!”.

Rui as unhas... Posso fazer o quê? Depois de uma apuração dramática nas eleições presidenciais, ufa! Vamos ao segundo turno. Até pensei em alguns foguetões ou algo assim, não necessariamente para comemorar a vitória de partido A ou B, mas a vitória de um tantinho de bom senso...

Quer dizer, será??? Será que o bom senso tem haver com o resultado nas urnas? Gostaria muitíssimo de imaginar que cada eleitor parou sua vidinha para se deter em uma análise criteriosa sobre a inabilidade do governo atual de promover desenvolvimento ou por que não consegue manter a economia se não for à custa de impostos exorbitantes, a imagem internacional, os índices educacionais, o superavit primário e coisa e tal...

Mas no fim eu sei (infelizmente) que o Lula não levou, nem com Bolsa Miséria e tudo, porque “não tem aquilo roxo”... Que o diga o Collor e sua redenção política em Alagoas ao ser eleito o novo senador, que por ironia (ou não) do destino vai ocupar justamente a antiga vaga da Heloísa Helena (e nem precisou usar a mesma blusa um mês inteiro e dizer que vai “esmagar as elites”!).

A recusa em participar do debate promovido pela Rede Globo pelo candidato do PT (que já se considerava eleito) gerou um efeito contrário ao que se pretendia. Não ir para não ser achincalhado converteu-se em uma ausência muito mais prejudicial à imagem do nobre “companheiro”.
Nas ruas só o que se escutava no dia seguinte eram xingamentos que ultrapassavam a barreira do “tolerável”... Afinal, todo mundo fala mal da mãe do juiz e chama político de ladrão, mas rotular de “covarde”... Foi pesado! Disso só se pode concluir uma coisa: Para brasileiro “subtrair” indevidamente do erário público não é condenável, mas acovardar-se sim. Traduzindo: Ladrão tudo bem, mas frouxo não!!!
“O poder é como violino. Toma-se com a esquerda e toca-se com a direita.” (Rsss... Adorei!)
(Esperidião Amim).

terça-feira, outubro 03, 2006

Always Madeleine

Madeleine Peyroux
I've seen love go by my door
It's never been this close before
Never been so easy or so slow
Been shooting in the dark too long
When something's not right it's wrong
You're gonna make me lonesome when you go
(...)

quinta-feira, setembro 21, 2006

Um Céu de Adeus


Disse-lhe que iria embora. Palavras que ele não poderia fazê-la engolir... Um “ir” que não poderia mais voltar... Irônico para não dizer trágico, foi o que pensou enquanto catava um restinho de voz no fundo da garganta para lhe dizer que estava muito feliz, que acreditava que isso era o melhor para ela. De fato talvez fosse se ele não estivesse perdendo com aquele “ir” todo o sentido de ser, estar e ficar.

Ainda segurava o telefone colado ao ouvido, mas cada palavra dela parecia-lhe se afastar mais uma quilômetro de distância... Uma voz rouca arranhava em um blues doído ao fundo enquanto ela dizia-lhe ao telefone que tinha algo para dar antes que fosse... Don’t you know that I need you... Don’t you know that I need you... Ainda girava o blues e a dor... Algo especial e que antes de lhe dar teria que ensiná-lo a usar... Algo que o manteria “muito, muito próximo” dela. Ele queria acreditar e queria pedir-lhe para largar aquela faca com a qual cortava sua pele, tão fina, ela não lembra? Queria parar de sentir que sem aviso roubaram-lhe a gravidade.

Se ao menos sentisse que ela sofria, mas nem condoída nem pensativa, muito mais próxima do eufórico do que ele das lambidas das chamas do inferno... No máximo conseguiu embebedar-se de mais auto-piedade. Imaginava amores novos, abraços novos, risos que não seriam dedicados a ele. Mais um pouco de chama. Foi ai que as cordas ela desatou. Foi bem nesse instante que viu crescer uma gigantesca parede de vidro entre os dois.

Disse-lhe que iria vê-la quanto antes! Disse-lhe mais outro tanto de inverdades agradáveis. Desligou. Agarrou-se a garrafa de vinho que ela lhe trouxe daquela viagem ao Chile. “Para beber em ocasiões especiais”. Dormiu sentindo a ilusão dos ébrios. Vinho adoçado com esperanças irreais. Os bons vinhos do Chile...

Às seis da tarde estava na frente do seu prédio. Às seis e dez dentro do elevador. Às seis horas, dez minutos e trinta e cinco segundos ela lhe abriu a porta sorrindo, lhe abraçando o corpo forte com seus braços frágeis e colando aquele corpo miúdo ao dele. Tinha pedido emprestado um sorriso de uns cartazes de anúncio na rua e colado em seu rosto. E isso a fazia tão bem, “não é meu bem?”.

Muitas caixas pelos cantos. Quadros fora da parede. Onde estão suas fotos e aquele sorriso torto ao seu lado no carnaval de 87? Um desalinho de fuga premeditada. Comentários rasos, infames, contraditórios, desnecessários e sem critério. Especialidade da casa. Era a única coisa que ele tinha a oferecer, pois estava oco. Completamente... Enquanto ela lhe cobria de detalhes da nova cidade e gesticulava alto quando falava desse bicho estranho de quatro patas, presas enormes e fome insaciável. Aquele bafo quente no pescoço. Futuro.

As palavras lhe vinham à boca como uma ânsia de vômito. Mas respira e tenta agir banalmente enquanto mergulha em um poço profundo de elucubrações. Finalmente ela lhe agarra a mão fazendo mil promessas de que nunca vai deixar de sentir saudades, e pedindo infantilmente que ele vá visitá-la nas próximas férias. Talvez mal saiba ela que as promessas são o primeiro passo para o esquecimento...

Sem soltar a mão que agora lhe encosta o peito leva-o até a varanda. Diz-lhe que não teve tempo de por um grande laço vermelho na sua luneta, mas que ele poderia imaginá-lo. Seu presente. Ela queria lhe dar estrelas.

Enquanto ela olha para o céu, debruçada sobre aquele “olho de vidro”, ele segue as linhas do piso com a ponta dos pés e o olhar perdido no chão. Tenta achar tantos porquês quantas são as toneladas do peso que arrasta desde que ela lhe disse esse “ir” infame... Porque nunca lhe disse que tanto desejava sua boca vermelha? E porque nunca lhe tocou os cabelos caídos sobre os ombros, porque nunca a pôs no colo e lhe olhou dentro dos olhos? Talvez tenha imaginado que teriam tempo infinito para saborear cada pedaço daquela eterna queda de braços... “Vamos brincar de gato-e-gato meu bem, vamos?” Mas entre eles não há como medir forças. Da igualdade só se retira derrota mútua... Ela cansou? Quem sabe ...

E como se montasse um enorme quebra-cabeça pensa no encontro. Pensa nesses “se” escondidos na esquina. Ela lhe fala das constelações e ele só pensa em seu próprio umbigo, na sua dor. Ela lhe conta a história mitológica de Órion e sorri apontando as Três Marias. Cão maior, cão menor e uma nebulosa. Pede-lhe que teste o equipamento, afinal agora aquela luneta é dele. Posiciona-o e lhe fecha o olho direito com o indicador rindo do seu mau jeito... E por aquela lente vê o que seria uma vida paralela ao lado dela, imagina até flores que logo murcham porque sabe que no máximo tiraria dela meia dúzia de boas risadas, um caminhão de tesão, e várias toneladas de desprezo raivoso no final. Não era o que queria. Abriu os olhos e cedeu de volta o espaço que a ela pertence...

Forças iguais devem se equilibrar... E o equilíbrio é seu sorriso pleno... Disso ele sabia. Ao mesmo tempo em que igualmente tinha consciência de que aquele sorriso dela era seu descompasso... Nem feliz nem triste. Nem presente nem ausente. Não sabia o que lhe doía mais...

“Buracos negros convivem?” Perguntou-lhe de surpresa. E ela ria divertida pelas curiosidades infantis enquanto explicava sobre a força gravitacional e velocidade da luz. Por mais que ele soubesse que ela não é estrela. Tão pouco ele. “Somos buracos negros meu bem, somos buracos negros!”.

A simplicidade é a meta, tal qual uma poesia perfeita, ela lhe explicava. Redonda e vazia, era o que pensava... Talvez por isso que ela nunca conseguiu enfiar ele em versos. Juntar seus pedaços como se costurasse grãos de areia com agulha e linha.

Ela pede uma estrela daquelas muitas apontando com o dedo e diz que é dela. Ela pede um até logo e ele só tem a lhe dar um monte de acenos teatrais típicos das partidas. Saiu daquela porta carregando, ela, uma estrela, uma luneta e um adeus.


P.:S.: Para ser lido ao som de Água - Jarabe de Palo

quarta-feira, setembro 20, 2006

Operação Buraco Negro


Estou chegando à conclusão que as pessoas ‘babam’ por uma polêmica, por um ‘disse-me-disse’, e escândalo então! Ô! Melhor do que novela das oito!

Acho que foi por isso que dia desses escutei alguém dizendo que bastou um brasileiro ir ao espaço que um planeta desapareceu... Tadinho do Plutão! Será que foi seqüestrado? Vão pedir resgate? Ou foi puro surrupio mesmo?? (E nós com uma fama dos infernos até no espaço!). Mais uma CPI, pode apostar... Ou então uma ação da Polícia Federal de nome esquisito... ‘Operação Buraco Negro’. Se bem que a Operação Buraco Negro poderia englobar muitos tipos de safadeza... Afinal, a política nacional é um enorme, enorme mesmo, buraco negro... E o que dizer então do caixa do PT... Esse então nem se fala!

Chegando ao nível escatológico de escândalos por segundo no Brasil, a mídia vai ter que se esforçar mais para nós tirar das nossas graciosas ‘coçadinhas’ em frente à TV e provocar uma boca aberta ou uns palavrões... Afinal de contas, quem se espanta mais com grampo telefônico nas salas dos ministros do TSE? Ou com ‘dossiês secretos’ circulando por ai? Alias, secretos vírgula! Todo mundo conhecia, mas para variar, ninguém sabe, ninguém viu! Já tivemos anões do orçamento, jardim super-faturado, sanguessuga, um presidente que é uma bela adormecida...Praticamente um filme da Disney! E adivinha quem são os patetas???

sexta-feira, setembro 15, 2006

Tão só palavras


Tinha a nítida impressão que a vida inteira só havia habitado poucos cômodos da vida dele. Talvez somente a sala de estar. Por mais que mergulhasse nunca chegava ao fim, um pântano, nada mais que isso.
Mas mesmo assim guardava aquele papel como uma jóia, preciosidade raríssima. Não se sentia preparada para deixá-lo ir. Nem ao papel nem a densa presença dele em seu pensamento. Já havia decorado todas as frases. Lia e relia em várias entonações. Doces, ligeiras, tocantes, arranhadas, urgentes... E independentemente da versão escolhida sua pele eriçava-se toda ao mero entreabrir daquela folha e até ao ser surpreendida pela memória que lhe assaltava daquelas palavras.

Por vezes se premiava em um dia de sol saboreando cada trecho bem devagar. Em outras, punia-se por se permitir tais vicissitudes. Tinha recaídas. Mas eram às palavras a que ela se dedicava. Dele não tinha hoje mais do que superfície, semi-verdade...

Abriu cuidadosamente as duas dobraduras do papel gasto e reabasteceu-se por hoje. Ao menos por hoje... Dobrou-o novamente, apertou-o contra e o peito e até teve vontade de cheirá-lo de tão caro que o era. Não o fez desta vez... O mantém preso àquele pedaço de papel. Congelado no exato momento em que ela não era tão só, e só palavras.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Com a palavra: A NOIVA


Estava em êxtase!
Não só porque naquela manhã havia acordado mais cedo que o normal, ou porque enjoava em demasia, mas finalmente porque aquele dia havia chegado.
A preparação de um ano para a festa e de outros oito para a vida em comum...
Finalmente...
Estavam todos lá, amigos, parentes, aderentes...
E principalmente ele, que não se continha em seu sorriso.
Eu que enquanto entrava só conseguia pensar “Nossa estou escutando a música, está linda, exatamente como pedi!”, “Nossa tem gente chorando e eu não, logo eu que choro no casamento de todo mundo, não estou chorando no meu!”
É... Eu não vi a cor do tapete nem a maioria dos convidados que estavam ali para compartilhar aquele dia tão esperado.
Não vi a maioria das pessoas, mas com certeza senti, que pelo menos a maior parte delas estava feliz e torcendo por nós.
Então, o momento, a festa, não precisa ser descrita porque não há palavras que bastem para descrever a felicidade...

E as amigas, que tanto amo, desculpa pela demora e pela resposta tão mirrada. É que não consegui descrever em palavras a surpresa e a felicidade pela homenagem.

terça-feira, agosto 22, 2006

Velas


No primeiro toque do telefone ainda navegava. Os cabelos dela eram as velas, e imaginava mar, sol, nuvens e tudo que pode compor um quadro perfeito. No segundo toque o navio começou a ir a pique tudo triste como os naufrágios e os dias de terça feira tem de ser.

Foi só então que se viu sentado na sua cadeira azul de sempre, na sua sala hermética e branca, em frente a sua mesa, cercado de caos produtivo por todos os lados. Uma ilha. Desejou o seu navio afundado, desejou asas e uma janela.

Mergulhos... Visto de fora, sorria seu melhor sorriso comercial, respondia com todos os ‘erres e esses’ das respostas genéricas. A mesa dela ao lado da sua. Proximidade torturante das possibilidades irreais. Imaginava-se levantando da cadeira, lhe tomando pela mão, arrebatando-lhe com um beijo ao meio-dia. Ou o inverso, que era o que mais gostava, quando ela empurrava todos os papéis da mesa e lhe puxava pela gravata... Por vezes surpreendia-se ensaiando o momento que pularia de sua cadeira na dela, lhe diria que odeia sua impessoalidade cordial, e logo depois lhe beijaria os pés e todos os seus dedos...

Entende as essencialidades. E nem se esforçou em notar o quando ela lhe amarrou com cordas o pensamento. Por ele, lhe lamberia o corpo inteiro com poesia e lhe embriagaria de imagens. Nem labirintos nem desertos, nem sujeitos nem objetos. “Só sua língua na língua minha, só sua língua na língua minha...”. Porque amava suas inverdades e as verdades que inventava só para ele.

Por ela se fez visível e correu todos os riscos, se fez vulnerável e ingênuo porque assim a fazia acreditar que, por ele, ela podia fazer algo. Fez-se de sofrido, vivido e forte, compartilhando dores, ciência, pintura, fotografia, literatura e novela das seis.

Certeza inabalável de necessidade mútua enquanto ela lhe passava pilhas de pastas para análise, certeza que de tão feridos nunca ousariam ferir. Flechas sem pontas esses olhares. Nunca encara seus olhos fundos. Carregam muito mais do que pode ler. Marido, filhos que quer por um segundo esquecer. Iletrado e analfabeto, é assim que se sente diante dela. Porque só pensa nesse latejar que sua pele provoca ao se aproximar.

Ela sorria mesmo impaciente. Deu três batidas firmes seguidas nas teclas do seu teclado. Depois mordeu a pontinha da tampa de sua caneta preta. Sinal claro e evidente. Ela também sente esses laços que lhes atam. Entrevê o suave movimento de seus seios sobre a blusa enquanto respira.

Ele acha que em algum lugar da sua memória pode encontrar fé. Acha que teve amor e que não sabe bem porque ele secou, esqueceu ou se perdeu. Abram-se as portas. Tem certeza que vai encontrar na curva fechada dos dedos dela enquanto segura o queixo com a mão, pensando efemeridades e lhe sorrindo enquanto guia sua nau de volta ao mar antes do telefone tocar outra vez.